segunda-feira, 20 de outubro de 2014

As coisas como são

Por aqui as pessoas estão no calor de um segundo turno de eleições, imaginando que têm um destino na ponta do dedo.
A Rede Globo cumpre seu papel de chefe de torcida, pendendo para Aécio porque dá respaldo ao candidato que seus anunciantes querem.
O povo, até o mais intelectualizado, se ilude achando que uma escolha ou outra muda alguma coisa profundamente.
Mas sabemos que qualquer um que assuma em janeiro têm mais condições de fazer benfeitorias a si próprio e seu grupo do que contribuir por uma reforma relevante da sociedade.
Porque isso ainda estará nas mãos dos interesses de associações de classe, representadas por lobistas e bancadas preocupadas em manter as regras como estão.
Mais uma eleição em que o choque social será apenas encenado e nada irá mudar.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A caça às bruxas internas

Você passa 4 anos (sim, porque eleição municipal não conta) onde política é um dos assuntos mais corta-papo de almoço ou qualquer encontro social.
Daí, quando a eleição presidencial chega e afunila, vira uma discussão sem fim, um maniqueísmo sem tamanho, onde muitos mal sabem do que estão falando e o debate se nivela às rodas de futebol, tipo se aquele caso de corrupção foi mão na bola ou bola na mão, etc.
Enquanto os marketeiros se esmeram em esconder as falhas e defeitos de caráter de seus candidatos, por aqui todo mundo se revela em texto e subtexto, o que de fato são e pensam.
Fariam melhor se usassem suas próprias opiniões como espelho para se conhecer melhor e definir um plano de auto-governo para os próximos anos.

domingo, 5 de outubro de 2014

A etimologia da zona de conforto

Se você ler "zona" não como região e sim como a gíria que se refere a bagunça, verá que zona de conforto a princípio pode ser lida como uma contradição.
Zona versus conforto, desordem versus ordem, e assim por diante.
Mas também pode ter a interpretação inspirada de "bagunça feita de acomodação".
E se você pensar bem, a acomodação gera, sim, uma bagunça mental.
À medida que não damos a atenção devida à nossa, desculpe a expressão gasta, voz interior, a tendência é adiarmos nossas questões fundamentais.
Profissionais, amorosas, familiares e principalmente, os ideais.
Os ideais, aquilo que todo jovem tem na ponta de língua e dentro do coração, mas que os "adultos" deixam cair e se perder no vão do sofá da acomodação.
Lembra quando você jurou seguir seu coração e só abraçar as causas que falavam direto a ele?
Cadê as viagens sonhadas, a morada na praia, a ONG para ajudar crianças e bichos?
Ao que parece, não passaram de projetos juvenis que foram espremidos como espinhas dos rostos corados e que deixaram marcas que nenhuma plástica consegue esconder.
Na tenra idade os ideais se instalam no seu corpo como sementes com promessa de frutos suculentos.
Mas a rotina aos poucos inibe seu florescimento.
E o ideal acaba como um inseto no âmbar, contendo o DNA precioso que se demorar para voltar à vida, pode voltar como um dinossauro inadaptável à nova atmosfera do futuro.
Mas o corpo não se cansa de avisar.
Com todos os tipos de mensagens possíveis.
Eles ecoam nos meandros que inteligam coração e mente.
E você se entorpece de todas as formas para não ouví-los.
Com álcool, drogas, sexo, videogame, comida.
Mas uma vida sem propósito é uma promissória com juros em progressão geométrica.
E a dívida consigo mesmo é sempre a mais pesada, não importa quantos zeros tenha.
Esquecemos que ela tem uma data de vencimento que é o da própria vida.
Portanto, desligue o celular.
Procure o canto mais quieto da casa, um onde o sinal da conexão consigo mesmo pode ser mais forte que o wifi.
Sente-se e se escute.
Esse exercício, se praticado com a devida disciplina e com um pouco de sorte, pode promover uma faxina interna reveladora.
Remove o carpete solto debaixo do qual você varreu décadas - se você tiver mais de 40 - de lixo mental.
Impossibilidades, impotência, frustrações, mágoas, decepções.
Tudo arrastado para fora para no final trazer à tona o seu verdadeiro chão.
E esse chão não precisará de polimento, pois não possui qualquer revestimento.
É um piso de cimento duro e frio, e ao mesmo tempo reconfortante, porque verdadeiro.
É dali que você vai se reerguer.
Mas não pense em zona de conforto.
Pense que a vida é uma zona mesmo.
E que o conforto vem de se habituar às suas oscilações.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

O eterno amante

Não é que os novos ricos não sejam afeitos à discrição.
Talvez a maioria dos que escalam a montanha social já ao pé dela não eram adeptos do comedimento.
Mas há exceções e Camilo é a prova disso.
Sempre de temperamento discreto, não titubeou em gozar as delícias que o acaso jogou em seu colo.
Literalmente, porque a fortuna lhe proporcionou aquilo que sempre amou durante a vida inteira: mulheres.
Elas vieram de repente aos borbotões, como num ataque de abelhas atraídas pelos doces confortos de que a rotina de Camilo se cercou.
Não, ele não largou sua senhora, aquela que sempre foi seu esteio nos infortúnios e fracassos, a respeitosa Dona Clotilde.
Essa teria um lugar eterno e único em seu coração.
Mas tirando seu apreço por Clotilde, de resto o coração de Camilo tinha apenas sua função de sobrevivência.
Quem mandava mesmo eram as partes baixas, essas as reais governantes de seus instintos.
Por isso Camilo não teve escrúpulos em amealhar o máximo de amantes possível.
E não tinha nenhum constrangimento em aplicar a famosa "carteirada" em ovelhinhas interesseiras.
Mas é claro, tudo feito longe da curiosidade de plantão.
Um de seus truques era evitar a mínima exposição pública.
Nada de motéis nem qualquer lugar do gênero onde pudesse cruzar com algum intrometido.
Para cada amante comprou uma garçoniére particular, não para a moradia da mulher, mas apenas para seus encontros esporádicos.
E o que é mais curioso: em nome da filha, para quem dizia que destinaria as rendas dos aluguéis quando o pai partisse para outro plano espiritual.
Mas como todo truque tem sua falha, um dia esse artifício também conheceu seu primeiro malogro.
Foi na ocasião em que Camilo, já nos seus avançados 90 anos, esqueceu de estender o tapetinho de borracha sob o chuveiro duplo onde se banhava com sua coelhinha da ocasião, a gostosa Bel.
No auge da paixão subaquática, Camilo deu uma fatídica pisada em um sabonete-armadilha e, se agarrando à desprevenida garota, acabou o casal indo à lona antes do segundo hound sob os lençóis.
Camilo permaneceu desacordado até a chegada da ambulância, sob a vigília da amante em estado de choque.
No final, se constatou uma quebra da bacia somada a algumas escoriações, que não tirariam Camilo de cena não fosse a descoberta pela filha de todo o circo amoroso montado por ele.
Afinal, eram nada menos que 25 amantes visitadas com uma frequencia por aquele ancião de dar inveja a muito garanhão no auge da carreira.
Camilo teve o sigilo de seu delito garantido por sua filha, desde que ele providenciasse o despejo imediato daquele harém custoso e indecente.
E hoje ele se contenta apenas com os mimos da enfermeira full time, contratada para dar salvaguarda à saúde precária de um ancião de 95 anos.
Diagnóstico que nunca foi subscrito por doutor nenhum.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Causa mortis

Eram aproximadamente uma dúzia de senhores em torno de uma mesa redonda, debatendo há dias e não chegando a nenhuma conclusão.
O motivo da discórdia seria banal para quem acompanha a política nacional: a distribuição de cargos.
Só que não se tratava de cargos políticos, nem de qualquer instituição pública ou privada.
Os homens ali ferrenhamente disputavam a mórbida função de testemunhar mortes.
Explico: os presentes não eram propriamente homens de carne e osso, e sim uma espécie de cavaleiros do apocalipse, entidades encarregadas de recolher as almas que acabavam de se despedir da vida mundana.
O que estava em disputa era a atribuição de um tipo de morte para cada entidade, porque também nas exigências curriculares dos céus a especialização era pré-requisito.
Assim, havia entidades para mortes de causas naturais, doenças, acidentes, assassinatos, etc.
E para cada especialidade, haviam subdivisões que geravam toda uma hierarquia de cargos dentro de cada modalidade de morte.
Mas nesse caso a dsputa de atinha ao mais alto cargo, o de CEO.
Os postulantes apresentavam suas credenciais para cada cargo específico e o eterno porteiro e zelador dos céus, São Pedro, mediava as discussões e dava a palavra final.
O debate acontecia mais ou menos assim:
- Sou o mais corajoso e frio, por isso mereço ser a Entidade dos Assassinatos.
- Para presenciar um assassinato também é preciso um grau de morbidez, e isso eu tenho de sobra.
- Bom, eu não entrarei nessa disputa, já que tenho todos os predicados para ser a Entidade dos Acidentes.
- E quais seriam?
- Estar sempre de prontidão, já que acidentes não tem hora nem lugar pra acontecer. E não podem esperar, pois podem obstruir o trânsito, por exemplo.
- A mim, que tenho natureza sossegada e paciente, cabe melhor a vaga das mortes naturais.
- É, algumas podem demorar décadas para acontecer. Que tédio...
- Eu prefiro o das doenças.
- Eu também: se mimam as forças aos pouquinhos ou de forma fulminante, ao menos é carta marcada para morrer. Não farei plantão à toa.
São Pedro intervém na discussão:
- Gente, tem pelos 3 candidatos para cada cargo. E pelo jeito não haverá consenso, pois apesar de estarmos no céu, não vejo como a resignação pode vencer o ego nessa disputa. Sendo assim, vou me advogar o direito de nomear os cargos.
Sob uma enxurrada de protestos, São Pedro procedeu à nomeação das entidades.
Nem sempre o bom senso prevaleceu na escolha, criando conflito entre cargos e aptidões.
Os mais afeitos a mortes trágicos tiveram que se conformar com recolher vítimas das mortes naturais. E vice-versa.
O resultado é que os espíritos inquietos acabavam perdendo a paciência.
E os mais calmos, eram pegos de surpresa por maus súbitos ou acidentes inesperados.
No final as almas ficaram mais expostas a tentações de quem nunca se ausentava no juízo final: ele mesmo, o coisa ruim.
Os agentes do mal, com sua competência de sedução ímpar, convenciam cada vez mais almas a povoar as delícias do subsolo, gerando uma grande crise de gestão entre os admnistradores lá de cima.
Definitivamente aquela gente do bem não tinha se preparado para o livre comércio de almas, com ênfase no melhor atendimento ao cliente.
Em pouco tempo todas as entidades foram demitidas.
E São Pedro deu lugar a um marqueteiro formado na Harvard, cuja missão agora é remodelar e tornar novamente atrativo o combalido reino dos céus.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Medinho de planta

"Ah, mas esse menino é a sua cara escrita".
Ele preferia ouvir "sua cara desenhada", já que era Diretor de Arte.
De qualquer forma, perceber que a cada dia seu rebento confirmava em aparência e trejeitos a quem tinha "puxado", enchia Antonio de orgulho.
O pequeno Lionel seria criado na rígida cartilha da família, onde os varões cedo aprendiam a fazer tudo com as próprias mãos.
Não "tarefas de mulher" como cozinhar, cerzir ou decorar, mas coisas de macho como talhar madeira, puxar fiação, até rebocar parede se fosse preciso.
Foi assim desde seu tatara-tataravô e não seria Antonio que amoleceria.
Por isso, foi com um misto de decepção e temor que Antonio soube por sua esposa da primeira fraqueza demonstrada por Lionelzinho: o medo de plantas.
Peralá, eu ouvi direito?
Sim, medo de plantas.
Não de cachorro, rato ou qualquer outro animal doméstico que pudesse, com alguma mordida ou arranhão, constituir uma real ameaça a um bebê.
Era o medo inexplicável de plantas que assombrava aquela pequena alma.
Mais especificamente de um buchinho, espécie das mais "fofinhas" dentro do reino vegetal, inofensiva se comparada a um feroz comigo-ninguém-pode, aterrorizantes plantas carnívoras ou mesmo a uma rosa, com seu caule espinhoso.
Com Lionelzinho no colo, Antonio procedeu a uma série de testes "in loco" para saber se aquilo não era delírio da patroa.
E não teve que chegar muito perto do vaso do buchinho para se confirmar o que temia: o bebê virou seu rosto e se encolheu todo junto ao peito de Antonio, abrindo um comovente berreiro de pânico.
No que o pai quase o acompanhou, pois era grande sua tristeza ao ver solapado o orgulho de uma linhagem inteira de homens, acostumados a enfrentar incólumes toda sorte de revezes e ameaças.
Mas momentos de dor também podem ser de clarividência.
Num átimo, Antonio recolheu a lágrima que ameaçava cair, se aprumou e entendeu seu papel de pai.
Ele não colocaria uma pedra sobre aquele assunto.
Não deixaria o medo do seu filho virar fofoca de familia ou motivo de chacota.
Também não confiaria a um psicólogo a solução - psicologia, meu filho, é para os fracos.
Antonio resolveria a seu modo, que foi o modo do seu pai e do seu avô: com as próprias mãos.
Aproximou-se do vaso do buchinho e, segurando a mão do menino, a fez resvalar na planta seguidamente, demonstrando o quão suave era o contato com a natureza.
A cara de choro que já se afigurava imediatamente se desvaneceu, dando lugar a um sorriso epifânico de que só uma criança em sua inocência é capaz.
Lionel afastou os galhos do buchinho como se descortinasse um pequeno portal dentro do seu mundo de faz de conta.
Onde os demônios se revertem em anjos caídos para preparar o final feliz.
Mas o desfecho não encantou mais ao menino do que ao seu pai.
Antonio percebeu que no final não foi a tradição familiar de "educar à mão" quem triunfara.
Foi a própria natureza quem quebrou o galho do pai.
E de quebra, também esfacelou toda a sua rigidez.
Simples assim.





quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Ex-burguer


"Gourmet é o a de haute cuisine ou alta cozinha, evocando assim um ideal cultural, associado com as artes culinárias. Assim um vinho ou um restaurante diz-se gourmet quando este é de alta qualidade e está reservado a paladares mais avançados e a experiências gastronômicas mais elaboradas. Por consequência os produtos e ou refeições gourmet são normalmente mais caras que os seus equivalentes não gourmet."
(fonte: Wikipedia)

Sou do tempo em que Gourmet era só uma marca de maionese.
Eram os primórdios do marketing e esse termo em francês ainda não tinha a conotação pseudo-sofisticada de hoje.
A vida também era mais simples e barata.
Se não me engano, "Gourmet" voltou às paradas no recente boom imobiliário, desta vez para adjetivar a enganosa varanda com churrasqueira.
E daí, pegando carona no marketês, passou a designar tudo que dentro da culinária se atribui como sofisticado, restrito e caro.
O cúmulo desse fenômeno se deu quando simples brigadeiro, picolé e hamburguer receberam a alcunha "gourmet".
Meros lanchinhos ganharam status de refeições e preços idem.
Mas a gourmetização não se restringiu à gastronomia - ou baixa gastronomia -, levando essa sofistição - ou frescura mesmo - para outros segmentos do comércio, usando esse artifício para elevar seus preços e aumentar margens de lucro.
Não vou citar exemplos, mas não ficaria surpreso se encontrasse por aí lavanderias premium, engraxates vip ou über salões de barbeiro.
Dizem que isso é um reflexo da mudança dos parâmetros do status, que evoluiu da aquisição do objeto de desejo para o conhecimento profundo sobre esse objeto.
A chamada valorização dos connoisseurs, especialistas em assuntos como vinho, charutos, carros de luxo e agora, até picolé.
Pena que num país como o Brasil isso não contamine setores carentes de connoiseurs, como a educação e a saúde.
Mas os tempos da simplicidade, de quando a gente corria para alcançar os carrinhos de lanche para comer "aquele hamburguer que não sei o que o tio coloca que fica bom pra c.", esses já se foram.
Hoje o bom é arrotar conhecimento sobre esse hamburguer enquanto degusta o lanche com uma qualidade aquém daquele antigo, mas que parece infinitamente melhor pela embalagem e discurso que o acompanham - como acompanhante, até a batata palha perdeu status.
O hamburguer gourmet de hoje é um ex-burguer.