sexta-feira, 4 de julho de 2014

O michê da terceira idade

Jurandir saiu da Câmara dos Deputados exultante.
Seu projeto de lei, que estabelece aposentadoria para michês, tinha passado em primeira instância.
Pela primeira vez na vida ele se sentia útil.
Não que achasse inglório vender sexo, do contrário não estaria lutando pelos direitos de uma categoria que não tinha regulamentação, muito menos carteirinha do INSS.
Justamente lutar pelos direitos de alguém em sua condição, isso era inédito.
Até então, sua baixa auto-estima o impedira até de muitas vezes se defender fisicamente.
Agora, como autor de um projeto de lei polêmico, que suscitou um acalorado debate envolvendo setores conservadores e liberais da sociedade, Jurandir precisava impedir que sua vaidade vulnerável tirasse o foco de seu objetivo.
Por anos ele sofreu batendo ponto na boca do lixo, atendendo a clientes de todos os tipos, desde adolescentes virgens a abastados chefes de família não assumidos.
Seu sonho era ser primeiro bailarino do municipal, ideal que perseguiu até ser enganado por um ex-bailarino sodomita, que tinha um cargo burocrático no teatro e se passou por caça-talentos para atraí-lo e violentá-lo.
Até esse episódio, suas experiências homosexuais tinham se resumido a uns "amassos" com amiguinhos de infância, cuja memória fora prontamente reprimida por uma educação que beirava a militar.
Mas embora sua iniciação no mundo gay tivesse beirado ao trauma, ao menos Jurandir se livrou do peso da vida falsa, e mesmo sobrevivendo de prostituição, acabou se encontrando.
Os dias - ou melhor, as noites - trabalhando nos arredores do Trianon lhe rendiam, além da sobrevivência, um punhado de amizades e a carteirinha de sócio de um mundo que aos olhos dos outros era bizarro, mas aos seus, bastante aprazível.
Naquelas poucas quadras que circundavam o parque, Jurandir se sentia apenas mais um, um camelô sexual de seu próprio corpo, livre para negociar seu produto como bem queria.
No seu auge podia escolher os clientes, e tinha preferência pelos mais jovens, sarados e endinheirado, que podiam proporcionar um pouco de conforto nas poucas horas juntos.
Já mais tarde, no crepúsculo da carreira, não podia mais se dar ao luxo de escolher clientes, quando não implorava a algum jovem mais requisitado para fazerem programas em dupla e dividirem o cachê artístico.
Foi nessa fase que ele começou a pensar em sua retirada.
Não queria acabar como muitos michês que não souberam fazer a transição para a derradeira etapa da vida, e acabaram ficando por ali mesmo, agora na mendicância.
Resolvou comprar a briga dos michês, se tornar um porta-voz não de uma profissão não regulamentada, mas de um ser humano invisível.
Afinal qual posição ocupa numa sociedade preconceituosa o homosexual prostituto?
O de duplo enjeitado, no mínimo.
Esse preconceito o repugnava ainda mais do que ele ao mais radical membro da TFP.
Mas não via a aprovação de sua lei como uma vingança, um revide de um tapa na cara.
No máximo uma vaidade, pois antes de tudo Jurandir era um pragmático.
Queria garantir o seu próprio leitinho, o da criança que ele ainda se julgava aos 62 anos.
Talvez posar de herói até para seus inimigos do Trianon, reação compreensível naquela fauna bizarra.
Por tantos motivos, não era de se esperar outra reação de Jurandir senão acompanhar a última votação do projeto de Lei no auditório do Senado, acompanhado dos amigos do Trianon e militantes de uma penca de entidades LGBT.
Foi quando os ecos da vitória se fizeram ouvir em todo o Planalto e vimos Jurandir sendo carregado em triunfo para fora do templo do poder, que vimos o quão efêmeros podem ser os sonhos.
Uma dúzia de Skin Heads, mais próximos de seus genéricos baratos, se atiraram contra o grupo que carregava Jurandir em êxtase, tombando e afundando seu líder em uma poça de sangue escuro, um adorno à arquitetura do Senado que Niemeyer não criaria nem em seus mais terrível pesadelo.
Jurandir foi carregado novamente pelos seus pares, agora como o mártir de um gueto, o gueto dentro do maior gueto de todos, um amontoado chamado Brasil.





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