quinta-feira, 30 de junho de 2016

A vida são várias.

Numa determinada época da minha vida, me interessei por livros de carreira.
Era uma espécie de auto-ajuda disfarçada, que me ajudava a definir rumos.
Mas um autor que não aconselhava profissionais, mas sim empresas, me chamou a atenção: Peter Drucker.
Em seu auge, Peter Drucker enfileirava sucessos nas listas de best-sellers e embora não me interessasse especificamente por admnistração de empresas, achei que deveria estar falando algo relevante.
De fato, pesquisando agora na internet, descubro que foi considerado "o pai da admnistração moderna, o mais reconhecido pensador sobre os efeitos da globalização na economia e organizações" (wikipedia).
Bom, mas para mim o que dele mais me chamou a atenção foi seu próprio plano de carreira: estudar um assunto profundamente a cada 5 anos, até o dia de sua morte.
Esses assuntos não eram específicos sobre gestão e sim genéricos, como arte oriental.
E Peter Drucker seguiu à risca sua diretriz, se tornando uma espécie de "generalista especialista".
Hoje, pensando na velocidade com que a informação se expande e se distribui pelo mundo, talvez seja impensável que alguém com apenas 5 anos de estudo acumule tudo sobre um assunto.
Mas Peter Drucker deu voz a muitos generalistas como eu, que acredita que a vida é muito longa e ampla para se restringir a um ou dois interesses.
Se um gênio como Leonardo Da Vinci deixou um legado que vai das artes plásticas às mais malucas invenções, em parte é porque não teve um plano de carreira único.
Peter Drucker fez o mesmo vários séculos depois, mesmo que só para se divertir.

O lado difícil de ser americano

Acabo de ler a notícia que inspirou este post, a de que o nadador multi-campeão Michael Phelps assegurou participação nas Olimpíadas do Rio na prova dos 200 borboleta e está na semifinal dos 200 medley.
Aos 31 anos, ele que é o maior vencedor das olimpíadas com 22 medalhas (18 ouros, 2 pratas 2 bronzes), se propôs a disputar mais 3 provas nos seus jogos de despedida, e está quase assegurando duas.
Fiquei imaginando como é ingrato para seus concorrentes, que há 5 seletivas estão ali tentando chegar pelo menos atrás do Phelps e realizar o sonho olimpíco - cada prova classifica no máximo 2 representantes de cada país.
Mas estamos falando do esporte de alto rendimento, somente a ponta do iceberg da tradicional competitividade americana.
Digo tradicional porque desde o berço o americano é incentivado a ser competitivo.
E se não for vencedor, é looser. E dá-lhe bullying.
Parece coisa de filme, mas não é.
É só lembrar que os EUA é o maior eldorado do mundo.
A terra das oportunidades, que atrai o maior número de imigrantes, estudantes, empreendedores, esportistas, enfim, talentos de todas as áreas.
Imagine o que é ser bom nesse país, onde ser o melhor não é mais do que a obrigação.
É preciso lidar com muitas pressão e frustração ainda maior.
Como os atletas de todas as modalidades que disputam as seletivas americanas.
Essas seletivas chegam a ter uma competitividade ainda maior que as olimpíadas, por vezes colocando até 8 atletas de nível equivalente numa mesma prova.
Não é mole, não.
Por isso que eu digo que o verdadeiro país das oportunidades é o Brasil.
Uma terra de cegos onde quem abre uma ótica já é rei.
No caso do Phelps, basta ele ganhar mais um ourinho por aqui e mais nada, pra cair nos braços da festiva torcida brasileira.

Empreender

Tem gente que é inquieta.
Não nasceu para esperar, depender dos outros, para planos de carreira.
São os empreendedores.
Essa gente que faz duas vezes antes de pensar.
E fracassam, e fracassam de novo, e de novo, até que acertam.
Daí crescem, e se fracassarem de novo, recomeçam.
A vida que não for concebida como uma volta de montanha russa, para essas pessoas não tem a menor graça.
Mas muita gente se equivoca, imaginando pertencer a esse grupo de sangue frio e estômago forte.
Trocam os pés pelas mãos e voltam rapidinho para a rotina pacata que lhe cai melhor.
Porque empreender não é para todo mundo.
É para os que tem gosto por colocar as idéias de pé e, percebendo o erro, não hesitam em derrubá-las.
Porque empreender é jogo arriscado, que não aceita desaforo.
Mas aos que se propõem ao jogo, talvez esteja reservado um lugarzinho bem quentinho ao sol.
Aquele lugar no alto de uma montanha do qual você pode mirar o caminho íngreme que ficou para trás.
E que só a pessoa entende como é que conseguiu subir.



terça-feira, 28 de junho de 2016

A mobília dos sonhos

A arte vale pelos sentimentos que evoca.
O trabalho de Los Carpinteros, por exemplo, é um convite à diversão.
Ainda que às vezes retratando temas sérios, não há como imaginar que conceber essas obras não foi divertido.
Formado por quatro artistas cubanos, esse inusitado grupo se debruça sobre objetos e situações do cotidiano, oferecendo novos significados para eles.
Assim uma cama se transforma numa montanha russa.
Um assento de sofá ganha bocas de fogão.
Um armário se confunde com uma colméia.
Uma granada se abre em gavetas.
Enfim, a criatividade da trupe é de encher os olhos e não pára de nos provocar sensações, que vão da curiosidade ao encantamento.
O título de Los Carpinteros, perfeitamente adequado à sua obra, remete a uma profissão que era comum na antiguidade, mas que hoje anda mais rara e desprestigiada, abaixo dos requisitados marceneiros.
Talvez ao se intitularem assim, com a insígnia da profissão que foi de Jesus Cristo, os cubanos quiseram enfatizar o caráter primitivo e sagrado de sua intenção artística, ainda que com resultados sofisticados.
Los Carpinteros nos diverte enquanto mostram como os objetos à nossa volta acabam impregnados da nossa relação com eles.

Fleuma

Sou fleumático.
Às vezes, por causa do meu jeito dissimulado - que por ser um pouco inexpressivo, meus amigos chamam de "monotonal" - pode parecer que não sinto, que não tenha paixões.
É o contrário, sou um sonhador.
Embora aja muitas vezes com pragmatismo, eu tenho horror a isso.
Prefiro o vôo cego, ainda que muitas vezes não consiga empreendê-lo.
Mas acredito sim na transformação, na evolução.
Que uma mudança para melhor está sempre à espreita e tenho que dar condições para que aconteça.
É que, para pessoas como eu, as mudanças não são decididas com um soco na mesa.
Elas ocorrem por vias tortuosas, se esgueirando entre dúvidas, tentando atravessar a calada da noite para se materializar no dia seguinte.
Aqui também há tombos, mas são discretos, quase inaudíveis.
Para mim funciona assim, de maneira infelizmente mais lenta.
Falta-me a coragem do risco explícito.
É que meu rosto não é do tipo que se dá para bater.
Sou sereno, para a desgraça ou euforia.
Mas isso não quer dizer que o coração não bata forte.
É que eu prefiro sorrir por dentro do que o estardalhaço.


Já Elvis? Nunca.

De todas as artes, para mim a música não figura entre as mais importantes, incompreensivelmente.
Não que não reconheça seu valor, longe disso.
É que não tenho a paixão, nem ao menos o hábito de escutar música.
Não colecionei vinis, nem CDs, nunca aguardei ansiosamente um show ou lançamento de álbum - isso antes da geração selfie chegar e denegrir o conceito de fã, porque no caso são apenas fãs de si mesmos.
Uma das maiores provas do meu flerte fracassado com a música é que fui conhecer Elvis pela sua faceta de ator - ok, ator dentro do que ele se propunha ser.
Lembro da sua presença na sessão da tarde, Elvis batia cartão em filmes açucarados onde representava a si mesmo, geralmente algum aventureiro sempre com um violão à tiracolo.
Pelos seus papéis despretensiosos, ficava evidente que o filme era apenas mais uma vitrine do Rei do Rock.
Mas na época eu não me dei conta disso.
Não conhecia a dimensão do ídolo, a revolução que representou sua música e estilo para o show bizz.
Tanto que mais tarde, a figura já decadente e melancólica do astro me provocou uma estranheza, como se Elvis não fosse Elvis, pelo menos não o que conheci.
Sua morte por overdose me chocou, como se uma rajada de vento derrubasse inopinadamente o castelo de cartas da minha infância, que tinha no sorriso eterno de Elvis um dos seus pilares.
Quando as pessoas dizem que Elvis não morreu, para mim faz todo sentido, ainda que de outra maneira.
Aquele Elvis de infância, que me fez gostar mais de passar tardes colado na TV do que na vitrola, permanece vivíssimo na memória como a imagem do sol se pondo em mais um fim de tarde da infância.
E o sol, assim como Elvis, morre e renasce dia após dia.

Zé Pequeno, o caralho.

Ser contemporâneo é ter experiências em comum.
Uma das maneiras mais fáceis de entabular uma conversa com alguém da sua geração é lembrar das referências de infância e adolescência.
Vários brinquedos, comidas, seriados de TV, álbuns de figurinha, modinhas, etc marcam gerações inteiras e ficam gravadas na memória afetiva.
É o caso do Dadinho, um docinho irresistível do meu tempo, que descobri ser um sobrevivente no mercado mil vezes mais competitivo de hoje.
Será que o Dadinho conserva o mesmo gostinho de infância que teve para mim no meu tempo?
Parece que sim, pois é incrível que tenha resistido a uma enxurrada de M&Ms da vida que chegaram para desbancar as iguarias nacionais.
Tomara que as crianças de hoje tenham o mesmo apreço pelo Dadinho que eu tive, gravem bem seu sabor e possam um dia se recordar dos bons momentos da infância como eu.
Sou ser mutante e às vezes tenho dificuldade para me apegar a coisas e pessoas de algum passado recente que já foi.
Mas espero ser capaz de me lembrar com carinho de tudo que me trouxe até aqui.
E sentir gratidão por isso.