Eu sei como a larva do bicho-da-seda se sente.
Pior, na condição de uma larva que não se metamorfoseia.
Há décadas que estou tecendo meu casulo, numa preparação sem fim para não sei o quê.
Proceder assim é bobagem, eu sei.
Nenhuma larva leva consigo um espelho pra saber se já está suficientemente pronta pra ganhar o mundo.
E quanto é estar pronto?
Se todo mundo fosse esperar pelas respostas, o mundo estaria povoado de casulos.
Mas o mundo é de quem faz, já diria um clichê dito por alguém que não tem medo de errar.
Então escrevo, escrevo, escrevo.
Como se das sementes plantadas nesta página pudessem brotar garras.
Não é discurso, é busca de redenção.
Cada toque no teclado é um protesto das mãos pelo corpo inerte, paralisado pelo medo.
O texto é a testemunha da minha luta.
domingo, 5 de junho de 2016
sábado, 4 de junho de 2016
Amor no banco de reservas
Trim-trim-trim, toca o celular na madrugada acordando Vitinho.
Vitinho, o estepe, o homem-satélite, o namorado reserva platônico.
Aquele que oferece o ombro, que queria ser bem mais que amigo, para Erica prantear quando esta é escanteada pelo namorado Ernesto, um homem casado.
Com a paciência e o tesão recolhido de um monge, Vitinho é todo ouvidos para o soluço amargurado da amiga, que promete abandonar o crápula e claro, nunca cumpre.
Erica acaba por se conformar nos braços de Vitinho, que às vezes mendiga um carinho a mais e, refutado pela amiga, se conforma com sua condição de platônico incorrigível.
Sim, porque Vitinho já tinha ficado no banco de reservas de outros times do seu coração: Paloma, Ana Luisa, Mariana, Helena, Camila, incontáveis "quase" namoradas.
Ao menos se para seu orgulho de macho ainda pudesse ser um P.A. em algumas ocasiões, mas não.
Para elas, ele era praticamente um assexuado.
Um cobertor de orelha sem permissão para armar a barraca.
Mas não pensem que as atribuições de Vitinho se resumiam a consolar amigas no aconchego de seus lares.
Elas acorriam ao seu abraço reconfortante nos mais diversos lugares e situações: na prova da faculdade, no escritório, no provador da loja, no banheiro feminino do bar.
Ele funcionava como uma viatura de resgate emocional, 24 horas à disposição de suas melhores amigas, por quem invariavelmente era apaixonado.
Até que enfim seu dia chegou.
Debaixo do edredon com Erica, após mais um capítulo de seu dramalhão, Vitinho foi chamado para o aquecimento.
Um resvalo dos lábios de Erica nos seus, um quase selinho, avisou a Vitinho que ele faria sua estréia, aos 45 do segundo tempo.
O rapaz, como toda promessa que se prepara anos pela chance de sua vida, titubeou.
Ao ficar frente a frente com o adversário, sentiu suas pernas bambearem, e ao invés de uma bomba redentora de furar a rede, atrasou a bola para o goleiro.
Deixou Erica pensar e deixar sua balança emocional pender para o lado da amizade.
Ela o afastou e se virou, desconsolada.
O irônico é que Vitinho até suspirou aliviado.
Não havia mais risco de ser escalado como titular na próxima partida.
Vitinho, o estepe, o homem-satélite, o namorado reserva platônico.
Aquele que oferece o ombro, que queria ser bem mais que amigo, para Erica prantear quando esta é escanteada pelo namorado Ernesto, um homem casado.
Com a paciência e o tesão recolhido de um monge, Vitinho é todo ouvidos para o soluço amargurado da amiga, que promete abandonar o crápula e claro, nunca cumpre.
Erica acaba por se conformar nos braços de Vitinho, que às vezes mendiga um carinho a mais e, refutado pela amiga, se conforma com sua condição de platônico incorrigível.
Sim, porque Vitinho já tinha ficado no banco de reservas de outros times do seu coração: Paloma, Ana Luisa, Mariana, Helena, Camila, incontáveis "quase" namoradas.
Ao menos se para seu orgulho de macho ainda pudesse ser um P.A. em algumas ocasiões, mas não.
Para elas, ele era praticamente um assexuado.
Um cobertor de orelha sem permissão para armar a barraca.
Mas não pensem que as atribuições de Vitinho se resumiam a consolar amigas no aconchego de seus lares.
Elas acorriam ao seu abraço reconfortante nos mais diversos lugares e situações: na prova da faculdade, no escritório, no provador da loja, no banheiro feminino do bar.
Ele funcionava como uma viatura de resgate emocional, 24 horas à disposição de suas melhores amigas, por quem invariavelmente era apaixonado.
Até que enfim seu dia chegou.
Debaixo do edredon com Erica, após mais um capítulo de seu dramalhão, Vitinho foi chamado para o aquecimento.
Um resvalo dos lábios de Erica nos seus, um quase selinho, avisou a Vitinho que ele faria sua estréia, aos 45 do segundo tempo.
O rapaz, como toda promessa que se prepara anos pela chance de sua vida, titubeou.
Ao ficar frente a frente com o adversário, sentiu suas pernas bambearem, e ao invés de uma bomba redentora de furar a rede, atrasou a bola para o goleiro.
Deixou Erica pensar e deixar sua balança emocional pender para o lado da amizade.
Ela o afastou e se virou, desconsolada.
O irônico é que Vitinho até suspirou aliviado.
Não havia mais risco de ser escalado como titular na próxima partida.
Apelidos, Aumentativos e Diminutivos
Carlinha era uma garota de 1,90 de altura, que queria ser vista como meiga.
Tonhão era um zagueiro do tipo armário, que intimidava os atacantes.
Juninho era um molecão varapau que tinha um pai militar castrador.
De Dicão chamavam o Eduardo, que não sabia explicar porque não era Edu ou Dudu.
Ela era o apelido da Daniela que queria ser muito mais que Dani.
Fezinha era o apelido da Fernanda que por coincidência tinha muita fé.
Afonsinho era como queria ser chamado Afonso, que achava seu nome muito sério.
Cascão era como preferia ser chamado o Austrigésilo, porque... não precisamos explicar né?
Analu era nome mesmo e não apelido de Ana Lucia ou Ana Luiza.
Oct era como se auto-nomeava Octávio, pois achava que Tavinho era demodé.
Pirulito era um incongruente baixinho gordinho.
Cezinha era um artista, um mini Cézanne.
Paulão era Paulão, e todo mundo consegue imaginar um Paulão.
Luluzinha era uma Luiza bibelô.
Riquinho na verdade era um Ricardo de classe média.
Joaninha era gente, não um inseto.
Alicinha era a Alice que era socialite.
Jô era o José artista, porque José anônimo é Zé.
Ameriquinha era um time de futebol que foi sempre pequeno ou se apequenou.
Timão não é time grande, é instrumento de navegação.
Faustão era um apresentador grande da cintura pra cima.
Caduzão é um aumentativo de apelido composto.
Talvez as pessoas pouco têm a ver com seus nomes, que receberam de seus pais na barriga.
Mas quase sempre são a cara de seus apelidos.
Tonhão era um zagueiro do tipo armário, que intimidava os atacantes.
Juninho era um molecão varapau que tinha um pai militar castrador.
De Dicão chamavam o Eduardo, que não sabia explicar porque não era Edu ou Dudu.
Ela era o apelido da Daniela que queria ser muito mais que Dani.
Fezinha era o apelido da Fernanda que por coincidência tinha muita fé.
Afonsinho era como queria ser chamado Afonso, que achava seu nome muito sério.
Cascão era como preferia ser chamado o Austrigésilo, porque... não precisamos explicar né?
Analu era nome mesmo e não apelido de Ana Lucia ou Ana Luiza.
Oct era como se auto-nomeava Octávio, pois achava que Tavinho era demodé.
Pirulito era um incongruente baixinho gordinho.
Cezinha era um artista, um mini Cézanne.
Paulão era Paulão, e todo mundo consegue imaginar um Paulão.
Luluzinha era uma Luiza bibelô.
Riquinho na verdade era um Ricardo de classe média.
Joaninha era gente, não um inseto.
Alicinha era a Alice que era socialite.
Jô era o José artista, porque José anônimo é Zé.
Ameriquinha era um time de futebol que foi sempre pequeno ou se apequenou.
Timão não é time grande, é instrumento de navegação.
Faustão era um apresentador grande da cintura pra cima.
Caduzão é um aumentativo de apelido composto.
Talvez as pessoas pouco têm a ver com seus nomes, que receberam de seus pais na barriga.
Mas quase sempre são a cara de seus apelidos.
sexta-feira, 3 de junho de 2016
Por que escrever?
Quem leu "Cartaz a um jovem poeta", de Rainer Maria Rilke, imagina que o autor responderia à pergunta que intitula esse post com um peremptório "porque você precisa".
Esse "precisar" a que o autor se refere é a necessidade do artista, de fazer aquilo como quem respira.
Ok, isso é bonito e define o talentoso, mas e nós, pobres mortais assalariados que também fazemos da escrita um ganha pão emocional?
O fato de não termos os mesmos talento e necessidade, de não jogar tudo para o alto pra viver de ar e poesia, nos faz escritores com propósitos menores do que os gênios?
Falando por mim, acho que os propósitos na verdade são diferentes.
Acredito que umas das minhas motivações para escrever é literalmente passar a limpo as minhas emoções e, estando ali expressas numa página, perceber se elas estão em conformidade com o que sinto e o que estou vivendo.
Eu preciso dessas momentos de reflexão para avaliar minha saúde mental, saber se no dia-a-dia estou conseguindo responder com atitudes à altura das minhas íntimas convicções.
Isso leva a outra questão, mais primordial: o que é viver de verdade?
De novo, não estou me referindo ao viver como aquela atitude heróica, hedonista, idealizado pelo mercado de consumo.
Falo do básico.
Do fazer aquilo que deve ser feito, pois todos nós temos um propósito de vida, ainda que não tenhamos descoberto ou que esse propósito sofra constante mutação.
Incluo aí os prazeres, o comer, o se divertir, o gozar.
Que fique claro: não faço apologia do sofrimento nem da tortura mental como pré-requisitos de uma vida plena.
Apenas considero que o conflito faz parte, que não precisamos apelar a anestésicos a fim de evitar o confronto com nós mesmos.
Talvez seja esse receio o que afasta as pessoas da literatura, e, mais especificamente, da alta literatura.
Primeiro porque a literatura requer silêncio, o afastamento das distrações histéricas produzidas pela tecnologia.
Segundo, a literatura nos faz vivenciar a miséria humana em sua plenitude.
Ela corta na carne dos personagens e por tabela, na do leitor.
Através da literatura, nos transferimos para épocas, mundos, condições de vida que são as nossas, mas que na verdade são também.
Essa identificação gera reflexão, sofrimento, anarquia interna.
Na vida já atribulada de afazeres que levamos, quem quer ainda mais sarna pra se coçar?
É mais fácil distrair sua mente com as rajadas de balas de um blockbuster.
Ou com o batidão do funk de música e letra insípidas.
É comum as pessoas fazerem confusão com o sentido da cultura.
A cultura não é produto de consumo, para ser exibida em público pelos cagadores de regra.
É por essa confusão que vemos gente fazendo cursos de degustação de vinho como quem compra um casaco de pele.
A meu ver, cultura tem o papel de aflorar nossa sensibilidade, trazer à tona aquela parte de você que até você desconhece, mas que é a sua melhor parte.
Por isso defendo que as pessoas gastem muitas horas de sua vida em contato com boas literatura, música, artes plásticas.
Se possível escrevendo, compondo, pintando.
Não tem problema se não sair nada que fique como legado.
Já tem livro, música e quadro geniais mais do que suficientes por aí.
Esse "precisar" a que o autor se refere é a necessidade do artista, de fazer aquilo como quem respira.
Ok, isso é bonito e define o talentoso, mas e nós, pobres mortais assalariados que também fazemos da escrita um ganha pão emocional?
O fato de não termos os mesmos talento e necessidade, de não jogar tudo para o alto pra viver de ar e poesia, nos faz escritores com propósitos menores do que os gênios?
Falando por mim, acho que os propósitos na verdade são diferentes.
Acredito que umas das minhas motivações para escrever é literalmente passar a limpo as minhas emoções e, estando ali expressas numa página, perceber se elas estão em conformidade com o que sinto e o que estou vivendo.
Eu preciso dessas momentos de reflexão para avaliar minha saúde mental, saber se no dia-a-dia estou conseguindo responder com atitudes à altura das minhas íntimas convicções.
Isso leva a outra questão, mais primordial: o que é viver de verdade?
De novo, não estou me referindo ao viver como aquela atitude heróica, hedonista, idealizado pelo mercado de consumo.
Falo do básico.
Do fazer aquilo que deve ser feito, pois todos nós temos um propósito de vida, ainda que não tenhamos descoberto ou que esse propósito sofra constante mutação.
Incluo aí os prazeres, o comer, o se divertir, o gozar.
Que fique claro: não faço apologia do sofrimento nem da tortura mental como pré-requisitos de uma vida plena.
Apenas considero que o conflito faz parte, que não precisamos apelar a anestésicos a fim de evitar o confronto com nós mesmos.
Talvez seja esse receio o que afasta as pessoas da literatura, e, mais especificamente, da alta literatura.
Primeiro porque a literatura requer silêncio, o afastamento das distrações histéricas produzidas pela tecnologia.
Segundo, a literatura nos faz vivenciar a miséria humana em sua plenitude.
Ela corta na carne dos personagens e por tabela, na do leitor.
Através da literatura, nos transferimos para épocas, mundos, condições de vida que são as nossas, mas que na verdade são também.
Essa identificação gera reflexão, sofrimento, anarquia interna.
Na vida já atribulada de afazeres que levamos, quem quer ainda mais sarna pra se coçar?
É mais fácil distrair sua mente com as rajadas de balas de um blockbuster.
Ou com o batidão do funk de música e letra insípidas.
É comum as pessoas fazerem confusão com o sentido da cultura.
A cultura não é produto de consumo, para ser exibida em público pelos cagadores de regra.
É por essa confusão que vemos gente fazendo cursos de degustação de vinho como quem compra um casaco de pele.
A meu ver, cultura tem o papel de aflorar nossa sensibilidade, trazer à tona aquela parte de você que até você desconhece, mas que é a sua melhor parte.
Por isso defendo que as pessoas gastem muitas horas de sua vida em contato com boas literatura, música, artes plásticas.
Se possível escrevendo, compondo, pintando.
Não tem problema se não sair nada que fique como legado.
Já tem livro, música e quadro geniais mais do que suficientes por aí.
Intolerâncias
Jeferson, Jef para os mais chegados, era um rapaz de ótimo vigor físico.
Tanto por sua genética como por um corpo moldado pela prática dos mais diversos esportes ao longo de uma vida inteira.
Mas à sua fortaleza aparente contrastava uma série de intolerâncias alimentares.
Não podia chegar perto de laticínios, ovos, morango, camarão, amendoim, pãozinho francês, etc,etc,etc.
Alguns amigos mais rechonchudos até atribuíam a boa forma de Jef, que já era um coroa sarado de "40 e uns" segundo o próprio, a essa frescura alimentar que o mantinha longe de tudo que era bom de comer.
Mas Jef de fato tinha intolerância a esses alimentos, pois sempre que era desafiado a encarar o medo, acabava sucumbindo e parando no pronto socorro, ou no mínimo em algum banheiro público.
Talvez por colocar tanta ênfase em seu físico e pouco dedicar às questões do espírito, ele não percebeu que suas intolerâncias tiveram início em eventos emocionalmente difíceis.
Quando da primeira vez que ficou de castigo aos 4 anos de idade, por exemplo, ele tinha comido o sanduíche de sua irmã, daí seu trauma ao pão francês.
Ou o primeiro fora de namorada aos 14, quando acabou engasgando com um pedaço de torta de morango ao ouvir o fatídico clichê "a gente precisa conversar".
Em outro ocasião que envolveu um coquetel de camarões, Jef foi avisado da morte de seu pai em plena temporada de férias no Caribe, e imediatamente correu para aliviar sua angústia no mar, devolvendo os camarões à sua casa.
Já sua ojeriza ao amendoim, como não podia deixar de ser, começou numa final de campeonato onde seu time levou uma virada histórica, levando 5 gols em sequência depois de estar vencendo por 4.
Claro que as intolerâncias incomodavam, mas não eram limitadoras ao ponto de fazer Jef se sentir restrito, mal-aventurado, castigado.
Até o dia em que Jef começou a sentir algo se revolvendo em seu estômago, um incômodo constante que não teve como gatilho nenhum tipo de alimento.
Um sintoma inexplicável que nenhum dos 10 médicos consultados conseguiu diagnosticar, onde ele sentia ânsia mas não vomitava, sofria cólicas mas não defecava, enfim, era um paciente não-doente.
Claro que acabou num consultório psicanalítico, onde Jef começou uma epopéia investigativa, apalpando sua própria alma em busca de seus nódulos emocionais.
Como dedicado atleta que era, encarou esse trabalho como se aprendesse, com dedicação extrema até fazer o cérebro decorar os novos movimentos.
Assim Jef foi perscrutando a si mesmo, entendendo não apenas seus problemas com alimentos, mas fazendo uma descoberta primordial: a maneira como ele deixava que a vida e os outros invadissem seu íntimo, suas prioridades, e contraditoriamente não apresentasse nenhuma intolerância a esse abuso.
Recobrou em sua memória os momentos decisivos em que fez concessões inaceitáveis aos outros, às circunstâncias, a uma necessidade besta de sentir seguro.
Se revoltou ao rever sua imagem passiva, abaixando a cabeça, anuindo passivamente e se agredindo com patadas em sua auto-estima.
Depois de meses de treinamento - preferia esse termo a tratamento - Jef abandonou o consultório mesmo sem receber alta.
Na verdade tinha recebido alta.
Tinha intolerância a regras.
Tanto por sua genética como por um corpo moldado pela prática dos mais diversos esportes ao longo de uma vida inteira.
Mas à sua fortaleza aparente contrastava uma série de intolerâncias alimentares.
Não podia chegar perto de laticínios, ovos, morango, camarão, amendoim, pãozinho francês, etc,etc,etc.
Alguns amigos mais rechonchudos até atribuíam a boa forma de Jef, que já era um coroa sarado de "40 e uns" segundo o próprio, a essa frescura alimentar que o mantinha longe de tudo que era bom de comer.
Mas Jef de fato tinha intolerância a esses alimentos, pois sempre que era desafiado a encarar o medo, acabava sucumbindo e parando no pronto socorro, ou no mínimo em algum banheiro público.
Talvez por colocar tanta ênfase em seu físico e pouco dedicar às questões do espírito, ele não percebeu que suas intolerâncias tiveram início em eventos emocionalmente difíceis.
Quando da primeira vez que ficou de castigo aos 4 anos de idade, por exemplo, ele tinha comido o sanduíche de sua irmã, daí seu trauma ao pão francês.
Ou o primeiro fora de namorada aos 14, quando acabou engasgando com um pedaço de torta de morango ao ouvir o fatídico clichê "a gente precisa conversar".
Em outro ocasião que envolveu um coquetel de camarões, Jef foi avisado da morte de seu pai em plena temporada de férias no Caribe, e imediatamente correu para aliviar sua angústia no mar, devolvendo os camarões à sua casa.
Já sua ojeriza ao amendoim, como não podia deixar de ser, começou numa final de campeonato onde seu time levou uma virada histórica, levando 5 gols em sequência depois de estar vencendo por 4.
Claro que as intolerâncias incomodavam, mas não eram limitadoras ao ponto de fazer Jef se sentir restrito, mal-aventurado, castigado.
Até o dia em que Jef começou a sentir algo se revolvendo em seu estômago, um incômodo constante que não teve como gatilho nenhum tipo de alimento.
Um sintoma inexplicável que nenhum dos 10 médicos consultados conseguiu diagnosticar, onde ele sentia ânsia mas não vomitava, sofria cólicas mas não defecava, enfim, era um paciente não-doente.
Claro que acabou num consultório psicanalítico, onde Jef começou uma epopéia investigativa, apalpando sua própria alma em busca de seus nódulos emocionais.
Como dedicado atleta que era, encarou esse trabalho como se aprendesse, com dedicação extrema até fazer o cérebro decorar os novos movimentos.
Assim Jef foi perscrutando a si mesmo, entendendo não apenas seus problemas com alimentos, mas fazendo uma descoberta primordial: a maneira como ele deixava que a vida e os outros invadissem seu íntimo, suas prioridades, e contraditoriamente não apresentasse nenhuma intolerância a esse abuso.
Recobrou em sua memória os momentos decisivos em que fez concessões inaceitáveis aos outros, às circunstâncias, a uma necessidade besta de sentir seguro.
Se revoltou ao rever sua imagem passiva, abaixando a cabeça, anuindo passivamente e se agredindo com patadas em sua auto-estima.
Depois de meses de treinamento - preferia esse termo a tratamento - Jef abandonou o consultório mesmo sem receber alta.
Na verdade tinha recebido alta.
Tinha intolerância a regras.
quarta-feira, 1 de junho de 2016
Profissão mendigo
Em 40 anos de carreira bem sucedida, a qual havia declinado apenas nos últimos anos, ele tinha feito um belo pé de meia.
O suficiente para que pudesse manter as aparências quando o baque da demissão veio, ocultando dos familiares e amigos sua condição de desempregado.
Por orgulho, para manter o status, ele jamais contou nada em casa.
Todo dia cumpria o ritual de acordar cedo, vestir seu terno e todo o aparato de sua farsa, inclusive crachá da empresa, trabalho levado pra casa - um calhamaço já todo amarrotado - e sua indefctível e brega capanga, hábito herdado do pai.
Cumpria todo o protocolo falso de se aprontar para o trabalho, mas de fato ia para seu novo "emprego": uma "vaga" de mendigo no centrão da cidade.
O ex- alto executivo já vinha cultivando uma vida mais simples, bem abaixo de seu padrão, como um treino para o dia em que não pudesse mais encher sua adega e as malas de volta de Miami.
Quando enfim ele recebeu o ultimato de sua carreira, colocou em prática o plano de levar uma vida estóica, porém de maneira radical, exercendo uma mendicância legítima, com direito a vestir trapos, mal comer e conhecer a humilhação da recusa dos pedidos de esmola.
Tomou gosto pela coisa.
A vida do lado de fora dos escritórios, ainda que no ambiente inóspito do centrão degradado, era muito mais adequado ao seu temperamento.
Era como se tivesse saído de 40 anos de internamento auto-imposto, anestesiado por uma rotina de reuniões, gráficos, cumprimento de metas e promessas de bônus anuais.
Lhe agradava muito mais o ambiente caótico do vai-e-vem dos transeuntes apressados, da gritaria dos camelôs, dos vendedores de bilhetes de loteria.
Conheceu o bom e o ruim das ruas, e percebeu que o pré-julgamento de quem observava de longe, por trás do olhar blindado da vida abastada, era mais que equivocado.
No chão de fábrica da vida havia efervescência, transparência, decência.
Estranhos logo se tornavam confidentes perante a opressão da dificuldade.
O ex- executivo descobriu o verdadeiro significado da amizade e solidariedade, conhecendo figuras das mais excêntricas.
Intelectuais, expatriados, filhos de lares degradados, os mais estranhos tipos não eram estranhos à indumentária de mendigo.
Estranhos eram os outros.
Os que disfarçavam sua condição humana precária por trás de ternos caros, restaurantes da moda e um protocolo de poses e sorrisos premeditados.
Mesmo a frustração de não revelar sua identidade verdadeira para seus novos companheiros de "trabalho", não diminuía a legitimidade da experiência do ex executivo.
Nunca as horas de expediente foram tão prazerosas e passaram tão rápido.
Era com pesar que ele deixava seu posto ao final do dia, alegando preferir dormir em um albergue, motivo de galhofa por parte dos outros mendigos.
Literalmente juntava seus trapos, se trocava num banheiro público e, refeito em seu terninho de terceira, tomava o caminho de sua antiga e desbotada vida.
Essa sim, misereavel.
O suficiente para que pudesse manter as aparências quando o baque da demissão veio, ocultando dos familiares e amigos sua condição de desempregado.
Por orgulho, para manter o status, ele jamais contou nada em casa.
Todo dia cumpria o ritual de acordar cedo, vestir seu terno e todo o aparato de sua farsa, inclusive crachá da empresa, trabalho levado pra casa - um calhamaço já todo amarrotado - e sua indefctível e brega capanga, hábito herdado do pai.
Cumpria todo o protocolo falso de se aprontar para o trabalho, mas de fato ia para seu novo "emprego": uma "vaga" de mendigo no centrão da cidade.
O ex- alto executivo já vinha cultivando uma vida mais simples, bem abaixo de seu padrão, como um treino para o dia em que não pudesse mais encher sua adega e as malas de volta de Miami.
Quando enfim ele recebeu o ultimato de sua carreira, colocou em prática o plano de levar uma vida estóica, porém de maneira radical, exercendo uma mendicância legítima, com direito a vestir trapos, mal comer e conhecer a humilhação da recusa dos pedidos de esmola.
Tomou gosto pela coisa.
A vida do lado de fora dos escritórios, ainda que no ambiente inóspito do centrão degradado, era muito mais adequado ao seu temperamento.
Era como se tivesse saído de 40 anos de internamento auto-imposto, anestesiado por uma rotina de reuniões, gráficos, cumprimento de metas e promessas de bônus anuais.
Lhe agradava muito mais o ambiente caótico do vai-e-vem dos transeuntes apressados, da gritaria dos camelôs, dos vendedores de bilhetes de loteria.
Conheceu o bom e o ruim das ruas, e percebeu que o pré-julgamento de quem observava de longe, por trás do olhar blindado da vida abastada, era mais que equivocado.
No chão de fábrica da vida havia efervescência, transparência, decência.
Estranhos logo se tornavam confidentes perante a opressão da dificuldade.
O ex- executivo descobriu o verdadeiro significado da amizade e solidariedade, conhecendo figuras das mais excêntricas.
Intelectuais, expatriados, filhos de lares degradados, os mais estranhos tipos não eram estranhos à indumentária de mendigo.
Estranhos eram os outros.
Os que disfarçavam sua condição humana precária por trás de ternos caros, restaurantes da moda e um protocolo de poses e sorrisos premeditados.
Mesmo a frustração de não revelar sua identidade verdadeira para seus novos companheiros de "trabalho", não diminuía a legitimidade da experiência do ex executivo.
Nunca as horas de expediente foram tão prazerosas e passaram tão rápido.
Era com pesar que ele deixava seu posto ao final do dia, alegando preferir dormir em um albergue, motivo de galhofa por parte dos outros mendigos.
Literalmente juntava seus trapos, se trocava num banheiro público e, refeito em seu terninho de terceira, tomava o caminho de sua antiga e desbotada vida.
Essa sim, misereavel.
A vocação mainstream
Às vezes a vida nos reserva muito mais do que precisamos.
Não se trata da máxima "Cuidado com o que desejas..."
Porque às vezes não desejamos e acontece assim mesmo.
Era o caso de uma banda de indie-rock, a Vintage.
Seus integrantes nunca buscaram o estrelato, queriam apenas fazer um tipo de rock que, quando muito, arregimenta um punhado de fãs e algumas garotas pra transar.
A base era de guitarra e bateria, somado a alguns instrumentos estranhos artesanalmente concebidos, de dar inveja a Hermeto Paschoal, mas que só os seus inventores conseguiam tocar.
Os primeiros ensaios na garagem e shows na faculdade não fugiram ao clichê de bandas adolescentes.
O Vintage aos poucos caía no gosto de um fiel público geek, que não fazia a menor questão de divulgá-lo a outras tribos.
E assim, promovido à boca pequena, a banda percorreu timidamente os primeiros anos de sua carreira.
Um ou outro show de vez em quando, em locais pitorescos como encontros de trekkers e feiras de tecnologia, era o que bastava para deixar os roqueiros satisfeitos com seu som.
Esse contentamento mantinha a trupe criativa e unida, e não era raro que eles passassem boa parte do tempo livre enfurnados em estúdio, mergulhados em experimentações sonoras sem fim.
Em 5 anos foram quase 7 álbuns lançados.
Uma composição mais instigante que a outra.
Toda essa fertilidade se devia a ausência de um esquema comercial, a pressionar cabecinhas com deadlines castradores indesejáveis.
Mas se a tentação do mercado não veio na forma de um empresário, chegou na figura de um cineasta.
Que escutou aquele som muito louco e imediatamente imaginou uma das canções do Vintage como abertura de seu documentário psicodélico-ecológico-católico-apostólico que estava prestes a sair do papel.
Pediu emprestado, tentou comprar, implorou pelos direitos de uso.
Mas a banda fincou pé, com medo do uso indevido de uma música com proposta tão pueril.
Tanto o cineasta fez que a banda acabou autorizando, depois de examinar o roteiro do documentário e concluir que só loucos de pedra se interessariam em vê-lo.
Sua previsão foi acertada, porque o documentário foi muito mal recebido, não conseguindo qualquer tipo de exibição, seja em salas de cinema, casas de cultura ou lugares afins.
O Vintage só não contava com o mau presságio de que o cineasta fosse sobrinho-neto de um importante figurão de uma emissora de TV aberta, que, a muito custo, conseguiu uma janela de exibibição numa fatídica madrugada de sábado para domingo.
Naquele fim de semana ocorreu uma nevasca na cidade, o que obrigou as pessoas a ficarem em casa e se entreter como pudessem.
Para quem tinha TV a cabo e videogame, ok.
Para quem não tinha, restou as emissoras abertas e o documentário sonolento.
Mas com uma música de abertura arrebatadora.
Uma sonoridade hipnotizante, que fez os espectadores reverem seus gostos musicais.
Nada de música chiclete.
Porque não grudava no ouvido, mas penetrava feito cotonete desfiado, amaciando as mais rígidas resistências musicais.
Foi um estouro e o começo do fim.
Uma ou duas faixas de trabalham começaram a ser executadas sem parar nas rádios, em cenas de novela, ringtones e comerciais de varejo.
O Vintage passou a ser absurdamente assediado, fazendo com que seus tímidos integrantes se fechassem em conchas.
Nada mais de shows, programas de entrevista, contratos com gravadoras.
A banda não fora concebida para tamanha exposição.
Por isso ruiu.
Seus integrantes não se entediam mais.
O tesão por criar sumiu.
Ainda que tentassem retomar a rotina, nada foi como antes.
E mesmo numa indústria que considera a releitura e a remixagem como bons produtos, se ancorar no passado era um avilte insuportável para garotinhos tão idealistas.
Então o Vintage se perpetuou como uma doce lembrança de um passado indie glorioso abortado por um indesejado sucesso de grande proporção.
Não se trata da máxima "Cuidado com o que desejas..."
Porque às vezes não desejamos e acontece assim mesmo.
Era o caso de uma banda de indie-rock, a Vintage.
Seus integrantes nunca buscaram o estrelato, queriam apenas fazer um tipo de rock que, quando muito, arregimenta um punhado de fãs e algumas garotas pra transar.
A base era de guitarra e bateria, somado a alguns instrumentos estranhos artesanalmente concebidos, de dar inveja a Hermeto Paschoal, mas que só os seus inventores conseguiam tocar.
Os primeiros ensaios na garagem e shows na faculdade não fugiram ao clichê de bandas adolescentes.
O Vintage aos poucos caía no gosto de um fiel público geek, que não fazia a menor questão de divulgá-lo a outras tribos.
E assim, promovido à boca pequena, a banda percorreu timidamente os primeiros anos de sua carreira.
Um ou outro show de vez em quando, em locais pitorescos como encontros de trekkers e feiras de tecnologia, era o que bastava para deixar os roqueiros satisfeitos com seu som.
Esse contentamento mantinha a trupe criativa e unida, e não era raro que eles passassem boa parte do tempo livre enfurnados em estúdio, mergulhados em experimentações sonoras sem fim.
Em 5 anos foram quase 7 álbuns lançados.
Uma composição mais instigante que a outra.
Toda essa fertilidade se devia a ausência de um esquema comercial, a pressionar cabecinhas com deadlines castradores indesejáveis.
Mas se a tentação do mercado não veio na forma de um empresário, chegou na figura de um cineasta.
Que escutou aquele som muito louco e imediatamente imaginou uma das canções do Vintage como abertura de seu documentário psicodélico-ecológico-católico-apostólico que estava prestes a sair do papel.
Pediu emprestado, tentou comprar, implorou pelos direitos de uso.
Mas a banda fincou pé, com medo do uso indevido de uma música com proposta tão pueril.
Tanto o cineasta fez que a banda acabou autorizando, depois de examinar o roteiro do documentário e concluir que só loucos de pedra se interessariam em vê-lo.
Sua previsão foi acertada, porque o documentário foi muito mal recebido, não conseguindo qualquer tipo de exibição, seja em salas de cinema, casas de cultura ou lugares afins.
O Vintage só não contava com o mau presságio de que o cineasta fosse sobrinho-neto de um importante figurão de uma emissora de TV aberta, que, a muito custo, conseguiu uma janela de exibibição numa fatídica madrugada de sábado para domingo.
Naquele fim de semana ocorreu uma nevasca na cidade, o que obrigou as pessoas a ficarem em casa e se entreter como pudessem.
Para quem tinha TV a cabo e videogame, ok.
Para quem não tinha, restou as emissoras abertas e o documentário sonolento.
Mas com uma música de abertura arrebatadora.
Uma sonoridade hipnotizante, que fez os espectadores reverem seus gostos musicais.
Nada de música chiclete.
Porque não grudava no ouvido, mas penetrava feito cotonete desfiado, amaciando as mais rígidas resistências musicais.
Foi um estouro e o começo do fim.
Uma ou duas faixas de trabalham começaram a ser executadas sem parar nas rádios, em cenas de novela, ringtones e comerciais de varejo.
O Vintage passou a ser absurdamente assediado, fazendo com que seus tímidos integrantes se fechassem em conchas.
Nada mais de shows, programas de entrevista, contratos com gravadoras.
A banda não fora concebida para tamanha exposição.
Por isso ruiu.
Seus integrantes não se entediam mais.
O tesão por criar sumiu.
Ainda que tentassem retomar a rotina, nada foi como antes.
E mesmo numa indústria que considera a releitura e a remixagem como bons produtos, se ancorar no passado era um avilte insuportável para garotinhos tão idealistas.
Então o Vintage se perpetuou como uma doce lembrança de um passado indie glorioso abortado por um indesejado sucesso de grande proporção.
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