domingo, 17 de julho de 2016

Os arcos das nossas histórias

Quem estuda narrativa sabe que "arco" é a curva que simboliza a estrutura de uma história.
O arco representa o desenvolvimento da narrativa, com curvas ora ascendentes e descendentes, cujas mudanças acentuadas denotam os pontos de virada, chamados pontos de inflexão.
O símbolo olímpico também é formado por arcos, que representam os cinco continentes.
Mas que também poderiam simbolizar a história de vida de todos os atletas participantes.
Afinal, é o ponto máximo da vida de um esportista, uma oportunidade única para grande parte deles, pois sua maturidade física e emocional raramente duram mais do que um ou dois ciclos olímpicos.
Por isso a Olimpíada, mais do que uma festa de congraçamento de raças - sobre a qual de novo paira uma ameaça terrorista - é a narrativa do drama de milhares de atletas, que vão verter suor, sangue e lágrimas por um momento de glória.
A maioria, claro, estará lá apenas para representar seus países e alcançar, se possível, as melhores marcas de suas vidas.
Uns poucos brigarão por medalhas e irão se candidatar a ícones da Rio 2016, protagonistas de mais um capítulo olímpico.
Mais ou menos midiáticos, esses milhares de heróis irão encarnar os bilhões de humanos que empunham uma caneta, uma enxada, uma vassoura, uma picareta, na labuta diária por um ideal que, guardadas as proporções, é a olimpíada de cada um.
Por isso nas 3 semanas que duram o evento provavelmente não vou desgrudar os olhos das telas que vão cobrí-lo.
Eu adoro um drama e as olimpídas estão recheadas de histórias que vão se desenrolando à medida que se revelam seus heróis, sejam eles super-heróis como Phelps e Bolt, ou os quase anônimos que se arrastam para cruzar uma linha de chegada.
Como um amante de boas narrativas, sou suscetível como poucos ao espírito olímpico e espero ansiosamente pelas primeiros acordes dos hinos no pódio.
Assim como pelos tombos, o choro, os arranhões, as refugadas de cavalo, o sumiço das varas de salto, a quedas dos favoritos, todos os elementos que constroem ótimas histórias baseadas em fatos reais.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

A realidade é outra

Os filmes de ficção científica sempre foram o melhor prenúncio do que viveríamos no futuro.
Alguns deles como Matrix abordaram nossa relação com um universo digital imaginário, algo semelhante ao que se confirma agora, com as experiências de realidade virtual se tornando cada vez mais comuns.
Talvez um dos melhores exemplos de que o limite entre vida real e virtual foi rompido sejam os campeonatos de games.
Em vez de se restringirem a batalhas virtuais dentro de uma sala com computadores, elas foram transpostas a ginásios com torcida organizada e tudo.
Os "atletas" - geeks viciados em computador - recebem tratamentos de astros, onde suas equipes disponibilizam alojamentos, alimentação, preparação física e acompanhamento psicológico. De quebra ainda ganham bons salários.
Claro que os campeonatos não se restringem ao interesse pelo jogo e jogadores, mas também se estendem a manifestações de cultura pop, onde parte da torcida se transfigura nos personagens dos games, os já tradicionais cosplays.
Mas para mim esse fenômeno cultural também é reflexo do distanciamento com experiências reais, de como parte da sociedade está preterindo o contato com pessoas e a natureza em função do gosto pela vida nas telas.
Filosofando um pouco sobre isso, especulo que o mundo fantasioso e alienante dos games, por sua natureza de transferência, seja mais gratificante e menos decepcionante para seus aficcionados, pois os exime dos desafios que a vida nos impõe.
Me parece emblemático que um campeonato de games peça uma platéia, uma arquibancada, o referendo de que se sentar diante de uma tela o dia inteiro é um propósito de vida.
Por anacrônico que eu possa soar, ainda acho o confronto das ruas mais saudável para jovens que queriam se tornar homens e mulheres destemidos.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Zé Vôberto

"Idade não é documento", diria minha avó se falasse português - que Deus a tenha onde quer que esteja.
Mas todo mundo sabe que com a idade muita coisa declina, como preparo físico, memória, reflexo.
No caso do Zé Roberto, 42 anos, tesão é que não é documento.
Já no alto dos seus 39, 40 anos, ele chegou no começo de 2015 a um Palmeiras em reconstrução, em meio a uma batelada de 24 novas contratações.
Àquele altura sabia-se que um título seria um projeto de médio a longo prazo, a depender do time dar liga, se estrututar, enfim, formar a chamada "espinha dorsal".
Mas ele veio mais rápido do que se esperava, com a conquista de uma Copa do Brasil no fim daquele ano, competição que por ser um mata-mata exige menos da regularidade conquistada com o tempo e mais da alma "copeira" que sempre caracterizou o Palmeiras.
Ao erguer o troféu da Copa, Zé Roberto deu uma entrevista onde ele insinuava que aquele seria um bom momento para se aposentar, pois alcançava a meta de um título nacional, conquista inédita em seu recheado currículo.
Mas a possibilidade de jogar uma Libertadores e acrescentar mais uma estrelinha em sua galeria pessoal o seduziu e Zé Roberto adiou o plano de dedicar mais tempo aos filhos, divulgando inclusive um video onde se via o atleta treinando nas férias, numa praia.
Começa 2016 e o Palmeiras cambaleia nas mãos do irregular Marcelo Oliveira, que se mostra um técnico mais sortudo do que estrategista.
Fim de sonho da Libertadores e Zé Roberto poderia ter se arrependido de não ter parado no "auge".
Mas o Palmeiras reage com Cuca e na 14ª rodada ostenta a liderança do campeonato brasileiro, o que deve estar rendendo um brilho extra nos olhos do bom velhinho.
Afinal, no empate em casa ontem contra o Santos, que se pode considerar um bom resultado pelo fraco desempenho do alviverde, o Vovô jogou demais.
Foi um monstro na defesa, desarmando os atacantes com uma virilidade de adolescente.
Parte do ponto conquistado se deveu à eficiência da defesa, que jogou fechadinha, e Zé Roberto teve muito mérito nisso.
O que me leva a crer que o tesão do vovozinho do time continua em alta.
Fato atestado por ele mesmo, quando declarou ter "namorado" sua esposa no último 12 de junho, após atuar por 90 minutos em um domingo de clássico contra o nosso eterno rival.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Decrete o fim

Todos nós sabemos quando chega o fim.
No amor, na profissão, em uma etapa da vida, o fim dá sinais de sua proximidade, ainda que não queiremos admití-lo, ainda que seja difícil a transição.
Mas para suavizar o impacto da mudança, fingimos ignorá-lo ou esperamos até que o fim nos dê a rasteira definitiva, que em geral é dolorida e melancólica.
Então por que não exercermos o direito de antecipar esse fim?
Antes que a monotonia nos embote, antes que o prolongar da enfermidade nos tire o brilho de um recomeço antecipado, ainda com o vigor da alma jovem.
Porque temos mais eus dentro de nós mesmos do que reza a cartilha do homem médio.
Como um círculo, somos dotados de arestas infinitas, inexploradas e potencialmente capazes de circunscrever meio mundo.
Então abracemos a mudança quando elas nos abrir os braços.
E que quando a incerteza nos lançar seu olhar de pavor, que consigamos devolver um sorriso desafiante, com a força revigorada da esperança, da vontade de sobrepujar os degraus iniciais da próxima montanha de desafios.
Porque só passamos de fase, o jogo ainda não acabou.

domingo, 3 de julho de 2016

Relaxamento inevitável

A carreira de um esportista é alimentada por desafios.
Djokovic passou muitos anos bufando no cangote de Federer e Nadal, até conseguir derrotá-los nos maiores torneios e assumir o posto de número 1 do mundo.
Depois de alguns anos nessa posição dominante, a grande conquista que lhe faltava era a do único dos 4 Slams que ele não possuía, Roland Garros.
Já tinha batido na trave 3 vezes e começava a se tornar um pequeno trauma na então irretocável carreira.
Pois quando o sérvio enfim conquistou o troféu dos mosqueteiros, como é conhecida a taça do aberto da França, não é que ele pareceu tirar um caminhão das costas?
A meu ver esse peso aliviado ajuda a explicar sua eliminação precoce em Wimbledon, o Grand Slam subsequente a Roland Garros, cuja conquista o manteria na briga para fechar os 4 maiores torneios do tênis num mesmo ano (faltava conquistar Winbledon e o US Open).
Mas Djokovic não é de ferro e sua cabeça cansou.
Sua maior meta para o ano foi alcançada e seu organismo deve ter pedido arrego.
Mesmo a medalha de ouro olímpica não tem o mesmo apelo do torneio francês.
Não que não a queira, ao contrário, deve chegar ao Rio babando.
Mas em parte, Djokovic já fechou 2016 para balanço.
E se Federer pretende atrapalhá-lo naquela que é seguramente a sua próxima meta - bater o recorde de 17 slams do suíço -, não pode perder essa chance única de levantar mais um caneco em Londres.
É provavelmente sua última chance.

Acarajá?

Quem já arrumou as malas com destino à Bahia sabe que tem que deixar a pressa em casa.
O baiano funciona em fuso horário distinto, exclusivo dele, nada de horário de Brasília e muito menos de São Paulo.
Uma vez fui cair na besteira de apressar uma baiana no preparo de um acarajé e fui desdenhosamente ignorado.
Deve ter levado uns bons 40 minutos até o quitute solicitado ir parar nas minhas famintas mãos e nem estava tão maravilhoso assim. Mas depois de tanta espera, virou o manjar dos orixás.
Ainda no assunto pontualidade, existe uma anedota em que, numa barraquinha na Bahia à beira-mar, um paulista pede um suco de laranja sem açúcar a um garçom. Depois de muita reclamação, ele chega com o suco 1 hora depois e ainda com uma espessa camada de açúcar no fundo do copo. Mas ao esboçar uma reclamação de que havia pedido o suco sem açúcar, o paulista é imediatamente retrucado pelo baiano com um singelo "mexa, não".
Isso tudo é pra dizer que definitivamente o paulista é um povo que não sabe relaxar. E eu sou prova disso, ao escrever este post diretamente do meu quarto nesse resort de Porto Seguro.
Como disse o blogueiro e turista profissional Ricardo Freire, paulista tira férias pra ficar estressado.
Concordo em gênero, número e 35 graus à sombra.

sábado, 2 de julho de 2016

Vista aérea

Quando estiver se sentindo o centro das atenções, mesmo que o centro da sua própria atenção, convém pegar um avião.
Lá de cima, dá para enxergar as coisas em perspectiva.
E perceber que somos minúsculos, formiguinhas digladiando insensatamente com nossas vidinhas, com nossa inexorável imortalidade.
De cima um grande latifundiário é dono de apenas um terreninho.
Um grande empresário é rei de um pequenino conglomerado.
O mais inflado dos egos não ocupa espaço nenhum.
Somos o que somos, pequenas consciências enclausuradas em corpinhos de formigas, achando que carregamos o mundo nas costas.
Por outro lado, ao ver o mundo de cima alguns bons sentimentos podem aflorar.
Podemos ver o quanto o planeta é bonito e precisa ser preservado.
Podemos imaginar o mundo de possibilidades que nos aguarda assim que decidimos que não cabemos mais em nossa vidinha.
Podemos querer abraçar o mundo, mesmo que em suaves prestações.
Porque mesmo na condição de formiguinhas, podemos carregar um grãozinho por vez, até construirmos nosso castelo particular de conquistas.
E não importa o tamanho desse castelo, ele só tem que ser suficientemente grande para quem importa: você.