Dizem que quando você quer algo bem feito, tem que fazer você mesmo.
Mas isso não se aplica a habilidades que não são as suas.
E muitas vezes não se aplica aos perfeccionistas.
Isto é, aí depende do que você chama de algo "bem feito".
O "bem feito" pode ser o razoavelmente executado, só que dentro do prazo.
Pode ser o meticulosamente realizado, mas sem respeito a deadlines.
Dificilmente se tem as duas coisas, a perfeição do trabalho dentro de um prazo exíguo.
Fazer bem feito exige habilidade, experiência, concentração, sorte, recursos financeiros, condições que dificilmente estarão todas reunidas num único projeto.
Além disso muitas vezes é preciso ter ousadia para arriscar, o que aumenta a probabilidade da empreitada não dar certo, jogando o perfeccionismo por água abaixo.
O perfeito não existe, já diziam nossas avós, mas vá tentar convencer um perfeccionista disso.
Provavelmente ele dirá que isso é apenas uma desculpa para ser desleixado, fazer meia-boquice.
Porque esse é um dos defeitos do perfeccionista: acreditar que só há 8 ou 80, o perfeito ou o serviço porco.
Mas como diriam os budistas, há sempre o caminho do meio.
E esse caminho do meio é amplo, tem várias pistas como uma highway européia.
O satisfatório pode ir de nota 5 a 9, o que, convenhamos, para muitas coisas na vida está mais do que bom.
Mas o perfeccionista não pensa assim.
Para ele, hotel deveria ter até 10 estrelas, aluno deveria buscar a nota 11, a miss, só para se candidatar, teria que medir 60x90x60.
Por isso o perfeccionista sofre.
Patina no terreno da hesitação.
Como tudo necessita de preparação, o tempo é seu maior inimigo.
Em sua lógica, se nada for planejado, ensaiado, exaurido, o resultado só poderá ser pífio.
Mas de longe não depende só disso.
A vida escolhe caminhos aleatórios, toma direções imprevistas, muitas vezes contra a nossa vontade.
Por isso é preciso aceitar as derrotas.
Muitas vezes todos os fatores comungam com o sucesso, mas na última hora ele dá no-show.
O perfeccionista precisa aprender a se perdoar.
Desenvolver capacidade de resignação diante dos revezes.
Até achar uma certa graça e "prazer" em falhar.
Porque os que mais falham, provavelmente estão vivendo melhor, com mais autenticidade e ousadia.
E beliscando um sucesso ou outro, de vez em quando.
É uma relação estatística entre tentativa e acerto, que a vida demonstra melhor que os números.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
domingo, 7 de dezembro de 2014
Augusta rua
Alguns lutam a vida inteira para tornar um sobrenome importante.
Ela atravessa décadas consagrando um singelo primeiro nome como símbolo do apogeu e queda de uma região: a Rua Augusta.
A Augusta já representou a opulência aristocrática, o endereço de luxo das mais importantes grifes à disposição dos abonados paulistanos - hoje foi superada pelo tal de Oscar, que precisa de um Freire na frente para merecer o mesmo respeito de sua antecessora.
Pelas ruas da Augusta, muito antes dos motoboys ameaçarem decapitar qualquer desavisado que ousasse colocar a cabeça para fora, eram comuns os emparelhamentos de carros, onde paquerantes e paquerados trocavam olhares, galanteios e números de telefone.
Hoje em dia fica difícil imaginar por ali um desfile de beldades em capotas abertas, a não ser numa ação de marketing fake.
Em seguida, dominada em sua região mais baixa pelas saunas e meretrícios, a Augusta virou antro do submundo, por onde os mais envergonhados passavam olhando as vitrines e putas de esguelha, ao contrário dos libertinos, que não se rogavam em parar o carro em busca de companhia de fim de festa.
Mais recentemente, em tempos de cultura hype, a Augusta tomou a dianteira como QG do underground paulistano, passando a abrigar, entre bares, baladas, lojas e puteiros, os points mais cool da cidade, concentrando o maior índice de biodiversidade por metro quadrado da cidade.
Algo semelhante à Reeperbahn de Hamburgo, que reúne baladas cool com uma miniatura do red light district de Amsterdam, juntando quem vive à noite com quem vive da noite sem nenhum preconceito.
Basta sentar-se à uma mesinha da Augusta no fim da tarde do sábado para observar a troca de guarda de seus frequentadores.
Aos poucos os estudantes de sociais amantes do papo e da breja gelada darão lugar a punks, freaks e espécies afins, refletindo nas calçadas os brilhos das fechadas de neon.
Há também os mais comportados, que acabaram ali apenas para uma sessão de cinema, show de stand-up ou um lanche do Frevinho.
Esses só estão ali para comprovar a vocação plural da Augusta.
Pena que essa pluraridade esteja com os dias contados, com a especulação imobiliária engolindo mais uma vez os 15 minutos de fama de suas fachadas coloridas.
Mas ainda que o tsunami urbano atravesse o leito da rua e ponha abaixo sua caracterização, a Augusta conservará em seus genes sua capacidade de ser vanguarda sob qualquer condição.
Coisa que sua prima esnobe e coxinha, a Avenida Paulista, não conseguiu manter.
Ela atravessa décadas consagrando um singelo primeiro nome como símbolo do apogeu e queda de uma região: a Rua Augusta.
A Augusta já representou a opulência aristocrática, o endereço de luxo das mais importantes grifes à disposição dos abonados paulistanos - hoje foi superada pelo tal de Oscar, que precisa de um Freire na frente para merecer o mesmo respeito de sua antecessora.
Pelas ruas da Augusta, muito antes dos motoboys ameaçarem decapitar qualquer desavisado que ousasse colocar a cabeça para fora, eram comuns os emparelhamentos de carros, onde paquerantes e paquerados trocavam olhares, galanteios e números de telefone.
Hoje em dia fica difícil imaginar por ali um desfile de beldades em capotas abertas, a não ser numa ação de marketing fake.
Em seguida, dominada em sua região mais baixa pelas saunas e meretrícios, a Augusta virou antro do submundo, por onde os mais envergonhados passavam olhando as vitrines e putas de esguelha, ao contrário dos libertinos, que não se rogavam em parar o carro em busca de companhia de fim de festa.
Mais recentemente, em tempos de cultura hype, a Augusta tomou a dianteira como QG do underground paulistano, passando a abrigar, entre bares, baladas, lojas e puteiros, os points mais cool da cidade, concentrando o maior índice de biodiversidade por metro quadrado da cidade.
Algo semelhante à Reeperbahn de Hamburgo, que reúne baladas cool com uma miniatura do red light district de Amsterdam, juntando quem vive à noite com quem vive da noite sem nenhum preconceito.
Basta sentar-se à uma mesinha da Augusta no fim da tarde do sábado para observar a troca de guarda de seus frequentadores.
Aos poucos os estudantes de sociais amantes do papo e da breja gelada darão lugar a punks, freaks e espécies afins, refletindo nas calçadas os brilhos das fechadas de neon.
Há também os mais comportados, que acabaram ali apenas para uma sessão de cinema, show de stand-up ou um lanche do Frevinho.
Esses só estão ali para comprovar a vocação plural da Augusta.
Pena que essa pluraridade esteja com os dias contados, com a especulação imobiliária engolindo mais uma vez os 15 minutos de fama de suas fachadas coloridas.
Mas ainda que o tsunami urbano atravesse o leito da rua e ponha abaixo sua caracterização, a Augusta conservará em seus genes sua capacidade de ser vanguarda sob qualquer condição.
Coisa que sua prima esnobe e coxinha, a Avenida Paulista, não conseguiu manter.
sábado, 6 de dezembro de 2014
Personagens
Personagens.
Histórias só existem por eles.
Complexos, esquizofrênicos, doces, passionais, melodramáticos, pacatos, alérgicos, ninfomaníacos, ultradimensionais.
Saio à rua e os encontro aos montes.
Todos interessantes.
De perto são ricos, intrigantes, misteriosos.
Ninguém é normal, já dizia alguém que esqueci.
Um segurança de prédio macambúzio, de noite vai entrelaçar as pernas como um extrovertido professor de cúmbia.
A velhinha caquética e assassina.
O moleque de rua que é um talentoso escultor.
O traficante que lidera romarias em feriados santos.
Todos eles empenhados no astuto trabalho de dissimulação de suas identidades ocultas.
Deixando entrever apenas uma fresta mínima para a imaginação sorrateira.
Que de lá irá extrair o que têm de mais interessante.
Verdade ou ficção, não importa.
A verdade sempre é relativa.
Não existe o "de carne e osso" na dimensão molecular.
Não existe o molecular em outra dimensão.
Não existe o hoje na coexistência atemporal do mundo.
Existe somente o que quisermos ver, sentir, pintar na tela imaginária, cósmica, atômica.
Nosso ponto de vista não é só da vista.
É dos outros sentidos, da memória emocional, da experiência.
A identificação com um personagem vem de um simples gesto, olhar, a sutileza que reverbera em camadas atrofiadas do inconsciente.
Que pedem carona à história para vir à tona.
Ou apenas fazer um bate-e-volta.
Personagem bom é o que nos pega pela mão para um passeio pelas trevas.
Que constrói a ponte para retomar a jornada do ponto onde se abriu um abismo.
Combinar um cinema ou teatro com alguém é mero pretexto.
O encontro verdadeiro é o seu com o personagem.
Desse encontro pode sair mais um caso de amor à vida.
Histórias só existem por eles.
Complexos, esquizofrênicos, doces, passionais, melodramáticos, pacatos, alérgicos, ninfomaníacos, ultradimensionais.
Saio à rua e os encontro aos montes.
Todos interessantes.
De perto são ricos, intrigantes, misteriosos.
Ninguém é normal, já dizia alguém que esqueci.
Um segurança de prédio macambúzio, de noite vai entrelaçar as pernas como um extrovertido professor de cúmbia.
A velhinha caquética e assassina.
O moleque de rua que é um talentoso escultor.
O traficante que lidera romarias em feriados santos.
Todos eles empenhados no astuto trabalho de dissimulação de suas identidades ocultas.
Deixando entrever apenas uma fresta mínima para a imaginação sorrateira.
Que de lá irá extrair o que têm de mais interessante.
Verdade ou ficção, não importa.
A verdade sempre é relativa.
Não existe o "de carne e osso" na dimensão molecular.
Não existe o molecular em outra dimensão.
Não existe o hoje na coexistência atemporal do mundo.
Existe somente o que quisermos ver, sentir, pintar na tela imaginária, cósmica, atômica.
Nosso ponto de vista não é só da vista.
É dos outros sentidos, da memória emocional, da experiência.
A identificação com um personagem vem de um simples gesto, olhar, a sutileza que reverbera em camadas atrofiadas do inconsciente.
Que pedem carona à história para vir à tona.
Ou apenas fazer um bate-e-volta.
Personagem bom é o que nos pega pela mão para um passeio pelas trevas.
Que constrói a ponte para retomar a jornada do ponto onde se abriu um abismo.
Combinar um cinema ou teatro com alguém é mero pretexto.
O encontro verdadeiro é o seu com o personagem.
Desse encontro pode sair mais um caso de amor à vida.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
A borboleta
Um garoto de 6 anos conversa com sua mãe no jardim de casa.
- Mãe, verdade que essa borboleta já foi uma larva?
- Verdade, filho, uma larva bem feia.
- Mas como ela conseguiu ficar assim tão bonita? Fez plástica?
- Não, amor, borboletas não fazem plásticas. É a natureza mesmo, um processo chamado metamorfose.
- Meta o quê?
- Metamorfose. A larva entra numa espécie de casinha chamada casulo - que ela mesma faz - e de lá sai transformada, com asas, toda lindinha como essa aí.
- Ah, tipo a cabine do super-homem?
- Mais ou menos, filho. O super-homem só troca de roupa, a borboleta se transforma completamente.
- Então o homem não consegue ganhar asas?
- Nem com Red Bull.
- Hã?
- Nada, esquece. Infelizmente não, Gutinho. Por isso inventamos o avião, a asa delta.
- Então o homem não passa por essa tal metamorfose?
- Passa sim. Mas a metamorfose no homem só muda ele por dentro.
- Hã? As asas do homem nascem por dentro?
- De alguma forma sim, um dia você vai entender.
- Mas eu quero entender agora, mãe. Por favor, me explica.
- A metamorfose no homem acontece de várias formas. Por exemplo, o seu irmão Pedro está ficando com a voz grossa. Ele está passando por uma metamorfose chamada adolescência.
- Mas eu quero saber das asas, mamãe, não da voz.
- Quando o homem ganha asas, meu amor, é só um modo de dizer. Sua irmã Paula foi morar em outra casa, se formou e depois casou. Então ela ganhou asas, ganhou vida própria.
- Sei, então isso é metamorfose?
- Sim, uma mudança grande na vida da gente.
- Então o que aconteceu com o papai também foi metamorfose.
- Pois é. Seu pai encontrou outra mulher e preferiu sair de casa. Foi uma metamorfose pra ele, pra todos nós.
- Ah, então eu não quero passar por metamorfose não. Quero ficar aqui com você para sempre.
- Mas um dia você também vai querer sair de casa.
- Não vou não, mãe. Não vou conseguir largar tudo isso aqui. Você, o Pedro, meu quarto, meus brinquedos.
- Pois é, seu quarto é o seu casulo. Um dia você também vai sair de dentro dele, vai bater suas asas e ir embora daqui.
- Não vou não.
- Vai sim, é a natureza.
- Mas eu vou ficar triste.
- Eu também, mas é a natureza chamando, meu filho. Não tem como dizer não para um chamado da natureza.
- Tirando o Paquito, já não gosto mais da natureza.
- Mas o Paquito também saiu um dia da casa dele e nunca mais voltou.
- Cachorro desnaturado. Pode deixar, mãe, isso não vai acontecer comigo.
E naquele dia Guto dormiu fora de seu casulo, com medo de ser expulso pela natureza.
- Mãe, verdade que essa borboleta já foi uma larva?
- Verdade, filho, uma larva bem feia.
- Mas como ela conseguiu ficar assim tão bonita? Fez plástica?
- Não, amor, borboletas não fazem plásticas. É a natureza mesmo, um processo chamado metamorfose.
- Meta o quê?
- Metamorfose. A larva entra numa espécie de casinha chamada casulo - que ela mesma faz - e de lá sai transformada, com asas, toda lindinha como essa aí.
- Ah, tipo a cabine do super-homem?
- Mais ou menos, filho. O super-homem só troca de roupa, a borboleta se transforma completamente.
- Então o homem não consegue ganhar asas?
- Nem com Red Bull.
- Hã?
- Nada, esquece. Infelizmente não, Gutinho. Por isso inventamos o avião, a asa delta.
- Então o homem não passa por essa tal metamorfose?
- Passa sim. Mas a metamorfose no homem só muda ele por dentro.
- Hã? As asas do homem nascem por dentro?
- De alguma forma sim, um dia você vai entender.
- Mas eu quero entender agora, mãe. Por favor, me explica.
- A metamorfose no homem acontece de várias formas. Por exemplo, o seu irmão Pedro está ficando com a voz grossa. Ele está passando por uma metamorfose chamada adolescência.
- Mas eu quero saber das asas, mamãe, não da voz.
- Quando o homem ganha asas, meu amor, é só um modo de dizer. Sua irmã Paula foi morar em outra casa, se formou e depois casou. Então ela ganhou asas, ganhou vida própria.
- Sei, então isso é metamorfose?
- Sim, uma mudança grande na vida da gente.
- Então o que aconteceu com o papai também foi metamorfose.
- Pois é. Seu pai encontrou outra mulher e preferiu sair de casa. Foi uma metamorfose pra ele, pra todos nós.
- Ah, então eu não quero passar por metamorfose não. Quero ficar aqui com você para sempre.
- Mas um dia você também vai querer sair de casa.
- Não vou não, mãe. Não vou conseguir largar tudo isso aqui. Você, o Pedro, meu quarto, meus brinquedos.
- Pois é, seu quarto é o seu casulo. Um dia você também vai sair de dentro dele, vai bater suas asas e ir embora daqui.
- Não vou não.
- Vai sim, é a natureza.
- Mas eu vou ficar triste.
- Eu também, mas é a natureza chamando, meu filho. Não tem como dizer não para um chamado da natureza.
- Tirando o Paquito, já não gosto mais da natureza.
- Mas o Paquito também saiu um dia da casa dele e nunca mais voltou.
- Cachorro desnaturado. Pode deixar, mãe, isso não vai acontecer comigo.
E naquele dia Guto dormiu fora de seu casulo, com medo de ser expulso pela natureza.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
Carpe diem
Diálogo entre duas drosófilas recém-nascidas:
- E aí, quais são os seus planos de vida?
- Planos? Mas eu acabei de nascer, ainda não tive tempo...
- Quanto mais cedo você se planejar, melhor.
- Melhor para quê?
- Para você se realizar, cumprir sua missão.
- Missão? Mas que missão?
- Ué? Ter uma profissão, casar, ser feliz, o que você sonhar.
- Mas pôxa, ainda nem me desgarrei dessa casca de banana...
- Só que a vida é curta. Com 24 horas de idade você vai virar um adolescente. Depois, lá pelas 48 horas vai encontrar uma profissão. Com 72, se enroscar em alguém e se acasalar. Com 96, virar avó. E assim por diante até bater as asas, digo, as botas.
- Isso se antes não virar jantar de lagartixa.
- Claro, mas estou falando da expectativa de vida média de nós drosófilas, que gira em torno de 7 a 8 dias, segundo o último IBGE.
- Nossa, como a vida é curta. Acho que vou me lambuzar nesse lixo enquanto posso.
- Como assim? Não há tempo a perder. Há muito o que fazer antes do adeus.
- Mas por mais que a gente faça, somos apenas drosófilas. A mosca do cocô do cavalo do bandido.
- E aí, vai ficar com papo existencial agora?
- Você é que está me cobrando um "sentido" para a vida. Eu só quero chafurdar aqui, nada mais.
- Mas amiga, isso é muito pouco. Há um mundo todo lá fora a explorar.
- Um mundo todo lá fora? Mesmo que você saia voando com turbinas no máximo, qual a distância que vai alcançar com 7, 8 dias? No máximo sair do bairro.
- O que proporcionalmente falando é um universo, não?
- Não estamos falando de Paris, né amiga? Esqueceu que nascemos no subúrbio de São Paulo?
- Olha, eu não vou gastar mais nenhum minuto discutindo com você. Faça o que bem entender com os seus 7...quer dizer, 6 dias 23 horas e 45 minutos de vida. Passar bem.
Nisso a mosquinha sai voando à toda rumo ao grandioso mundo de possibilidades que a espera janela afora.
Tão eufórica que não percebe a presença de uma vidraça que acabou de ser lustrada pela faxineira e se espatifa contra ela, dando fim à sua vida nas flor dos seus 14 minutos e 37 segundos de idade.
A outra drosófila assiste estupefata ao desfecho irônico daquele debate entre opiniões antagônicas sobre a vida.
E ao ver o saco de lixo se fechar acima pelas mãos da faxineira, presencia a sua própria condenação ao cárcere perpétuo, relegada ao escuro, ao calor e à asfixia, dentro do saco preto tão temido pelos homens.
Mas, conformada, apenas dá de ombros e volta a se esbaldar no néctar de um cacho de uvas apodrecidas.
Se o mundo não se importa com mosquinhas, pensou ela, não sou eu quem vai fazer isso.
- E aí, quais são os seus planos de vida?
- Planos? Mas eu acabei de nascer, ainda não tive tempo...
- Quanto mais cedo você se planejar, melhor.
- Melhor para quê?
- Para você se realizar, cumprir sua missão.
- Missão? Mas que missão?
- Ué? Ter uma profissão, casar, ser feliz, o que você sonhar.
- Mas pôxa, ainda nem me desgarrei dessa casca de banana...
- Só que a vida é curta. Com 24 horas de idade você vai virar um adolescente. Depois, lá pelas 48 horas vai encontrar uma profissão. Com 72, se enroscar em alguém e se acasalar. Com 96, virar avó. E assim por diante até bater as asas, digo, as botas.
- Isso se antes não virar jantar de lagartixa.
- Claro, mas estou falando da expectativa de vida média de nós drosófilas, que gira em torno de 7 a 8 dias, segundo o último IBGE.
- Nossa, como a vida é curta. Acho que vou me lambuzar nesse lixo enquanto posso.
- Como assim? Não há tempo a perder. Há muito o que fazer antes do adeus.
- Mas por mais que a gente faça, somos apenas drosófilas. A mosca do cocô do cavalo do bandido.
- E aí, vai ficar com papo existencial agora?
- Você é que está me cobrando um "sentido" para a vida. Eu só quero chafurdar aqui, nada mais.
- Mas amiga, isso é muito pouco. Há um mundo todo lá fora a explorar.
- Um mundo todo lá fora? Mesmo que você saia voando com turbinas no máximo, qual a distância que vai alcançar com 7, 8 dias? No máximo sair do bairro.
- O que proporcionalmente falando é um universo, não?
- Não estamos falando de Paris, né amiga? Esqueceu que nascemos no subúrbio de São Paulo?
- Olha, eu não vou gastar mais nenhum minuto discutindo com você. Faça o que bem entender com os seus 7...quer dizer, 6 dias 23 horas e 45 minutos de vida. Passar bem.
Nisso a mosquinha sai voando à toda rumo ao grandioso mundo de possibilidades que a espera janela afora.
Tão eufórica que não percebe a presença de uma vidraça que acabou de ser lustrada pela faxineira e se espatifa contra ela, dando fim à sua vida nas flor dos seus 14 minutos e 37 segundos de idade.
A outra drosófila assiste estupefata ao desfecho irônico daquele debate entre opiniões antagônicas sobre a vida.
E ao ver o saco de lixo se fechar acima pelas mãos da faxineira, presencia a sua própria condenação ao cárcere perpétuo, relegada ao escuro, ao calor e à asfixia, dentro do saco preto tão temido pelos homens.
Mas, conformada, apenas dá de ombros e volta a se esbaldar no néctar de um cacho de uvas apodrecidas.
Se o mundo não se importa com mosquinhas, pensou ela, não sou eu quem vai fazer isso.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
Perdeu-se a magia, tratar com você mesmo.
Quando o homem vivia em clãs a magia era tão necessária e presente em sua vida quanto o Bolsa Família.
Nada causava estranheza aos olhos de um ser humano mais conectado com a natureza e nada tecnocrata.
Mas daí veio a ciência para condenar tudo que não fosse empírico, a cercear nosso instinto.
Paramos de pensar com todos os nossos sentidos.
Passamos a reverenciar o cérebro e colocamos cientistas e empresários como Einstein e Steve Jobs não apenas no rol dos gênios, mas também no panteão dos ídolos.
Ok, explicar a matéria e fazer telas comandadas pelo toque humano também são mágicos, mas o fato de vir com manual do usuário já tira toda a graça.
A magia que anda escassa é a da crença.
A crença ingênua, a do artista, dos apaixonados, do homem que vive numa eterna transmutação entre adulto e criança.
Entre o jovem que acreditava num mundo de possibilidades infinitas e o adulto que só enxerga o preto no branco, ficou um abismo de possibilidades perdidas.
Podemos fazer a descida de volta para resgatá-las? Claro que sim.
Como também preparar o terreno para que coisas novas brotem.
O problema é a falta de tempo e espaço.
A necessidade de sobrevivência mingua nossas oportunidades de explorar o auto-conhecimento.
Os que ganham mais do que para comer, se auto-congratulam com o consumo de luxo, justificando as horas extras, as noites mal dormidas, o stress que debilita a saúde.
Nada contra uma bela moradia, bons carros e viagens exóticas.
Só que as horas do seu traseiro colado na cadeira do escritório são as mesmas do convívio com a natureza, a arte, pessoas diferentes, enfim, do livre vagar por aí sendo apenas você.
Por isso há que se pensar se a compensação do capitalismo não anda por demais descompensada.
Estamos nos contentando com pouco.
Ha algo errado quando o post da praia paradisíaca é mais importante que sentir a areia nos pés.
Nada causava estranheza aos olhos de um ser humano mais conectado com a natureza e nada tecnocrata.
Mas daí veio a ciência para condenar tudo que não fosse empírico, a cercear nosso instinto.
Paramos de pensar com todos os nossos sentidos.
Passamos a reverenciar o cérebro e colocamos cientistas e empresários como Einstein e Steve Jobs não apenas no rol dos gênios, mas também no panteão dos ídolos.
Ok, explicar a matéria e fazer telas comandadas pelo toque humano também são mágicos, mas o fato de vir com manual do usuário já tira toda a graça.
A magia que anda escassa é a da crença.
A crença ingênua, a do artista, dos apaixonados, do homem que vive numa eterna transmutação entre adulto e criança.
Entre o jovem que acreditava num mundo de possibilidades infinitas e o adulto que só enxerga o preto no branco, ficou um abismo de possibilidades perdidas.
Podemos fazer a descida de volta para resgatá-las? Claro que sim.
Como também preparar o terreno para que coisas novas brotem.
O problema é a falta de tempo e espaço.
A necessidade de sobrevivência mingua nossas oportunidades de explorar o auto-conhecimento.
Os que ganham mais do que para comer, se auto-congratulam com o consumo de luxo, justificando as horas extras, as noites mal dormidas, o stress que debilita a saúde.
Nada contra uma bela moradia, bons carros e viagens exóticas.
Só que as horas do seu traseiro colado na cadeira do escritório são as mesmas do convívio com a natureza, a arte, pessoas diferentes, enfim, do livre vagar por aí sendo apenas você.
Por isso há que se pensar se a compensação do capitalismo não anda por demais descompensada.
Estamos nos contentando com pouco.
Ha algo errado quando o post da praia paradisíaca é mais importante que sentir a areia nos pés.
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
Você anda vendo muito filme americano
Você já deve ter ouvido essa frase de alguém, quando por exemplo, levantou uma hipótese com mais cheiro de fantasia do que da nossa pacata rotina.
É que os americanos, pela própria insistência em alimentar o tal sonho yankee, são mestres em florear, dramatizar, enlevar, espetacularizar o seu próprio dia-a-dia, transformando tudo que é vivido por lá num grande espetáculo.
Os filmes, embora de uma maneira exagerada, acabam refletindo esse sentimento de que nada na vida é tão banal que não possa virar um musical da broadway.
Lógico que vender o mito americano é parte fundamental da tarefa de manter sua hegemonia econômica e cultural sobre o mundo.
Um mundo que é ávido por consumir tudo que o show bizz deles é capaz de vender, afinal somos uma platéia assídua do espetáculo incessante chamado Estados Unidos.
Isso não é uma crítica direta ao regime econômico ou sistema de governo.
Antes disso, critico a idolatria cega que o resto do mundo devota ao Tio Sam.
O que o americano médio apresenta como ideal de life style está longe de ser um mode de vida equilibrado e feliz.
Fosse assim não veríamos os desajustes sociais que povoam os telejornais e suas obras de ficção.
Some-se a isso um constante sentimento de insegurança, alimentado pela indústria armamentista, e você terá uma sociedade doente, obcecada pela próxima catástrofe por vir.
Mas a impressão que dá é que o povo vive conformado com o status quo.
Parece que há uma aceitação velada de que esse é o preço a ser pago pela mais invejada e temida nação do mundo.
Uma nação formada por self-made men truculentos, partidários da eficiência, de gente que não titubeia para sacar uma arma na legítima defesa de si mesma.
Seu espírito vencedor nato é a mola mestra de uma sociedade materialmente bem-sucedida.
Mas não dá para deixar de apontar a empáfia americana de olhar somente para o próprio umbigo, não dando bola nem para sua mãe Inglaterra.
Os maiores defensores dos Estados Unidos rasgam elogios a um país "onde tudo funciona", mesmo que essa eficiência inclua as atrocidades que eles fazem em seus quintais espalhados pelo globo.
Mas "funcionar" é qualidade de engrenagem, de máquina.
Não da alma e do coração de um povo.
É que os americanos, pela própria insistência em alimentar o tal sonho yankee, são mestres em florear, dramatizar, enlevar, espetacularizar o seu próprio dia-a-dia, transformando tudo que é vivido por lá num grande espetáculo.
Os filmes, embora de uma maneira exagerada, acabam refletindo esse sentimento de que nada na vida é tão banal que não possa virar um musical da broadway.
Lógico que vender o mito americano é parte fundamental da tarefa de manter sua hegemonia econômica e cultural sobre o mundo.
Um mundo que é ávido por consumir tudo que o show bizz deles é capaz de vender, afinal somos uma platéia assídua do espetáculo incessante chamado Estados Unidos.
Isso não é uma crítica direta ao regime econômico ou sistema de governo.
Antes disso, critico a idolatria cega que o resto do mundo devota ao Tio Sam.
O que o americano médio apresenta como ideal de life style está longe de ser um mode de vida equilibrado e feliz.
Fosse assim não veríamos os desajustes sociais que povoam os telejornais e suas obras de ficção.
Some-se a isso um constante sentimento de insegurança, alimentado pela indústria armamentista, e você terá uma sociedade doente, obcecada pela próxima catástrofe por vir.
Mas a impressão que dá é que o povo vive conformado com o status quo.
Parece que há uma aceitação velada de que esse é o preço a ser pago pela mais invejada e temida nação do mundo.
Uma nação formada por self-made men truculentos, partidários da eficiência, de gente que não titubeia para sacar uma arma na legítima defesa de si mesma.
Seu espírito vencedor nato é a mola mestra de uma sociedade materialmente bem-sucedida.
Mas não dá para deixar de apontar a empáfia americana de olhar somente para o próprio umbigo, não dando bola nem para sua mãe Inglaterra.
Os maiores defensores dos Estados Unidos rasgam elogios a um país "onde tudo funciona", mesmo que essa eficiência inclua as atrocidades que eles fazem em seus quintais espalhados pelo globo.
Mas "funcionar" é qualidade de engrenagem, de máquina.
Não da alma e do coração de um povo.
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